segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Raios de sol

Alguns raios de sol fazem-me erguer a mão para proteger o olhar. Semicerrados pela dor aguda sentida docemente, os olhos não perdem a curiosidade que lhes é inerente. Questiono: exponho-me a esta luz sem pudor nem receio ou viro-lhe as costas e abro o peito ao lado que ela ilumina? Em qualquer das opções não posso negar a sua evidência, nem evitar a sua existência..!



domingo, 16 de dezembro de 2012

As vantagens do limbo



Considero a tão almejada estabilidade um produto de uma utopia gerada pela forma como a mentalidade se desenvolveu nos últimos tempos. Daí maior parte das pessoas saberem “bem” o que querem da vida, do que precisam para se sentirem felizes. Então, começam por estabelecer objetivos para o futuro, maior parte deles incluem posses (materiais ou imateriais), como carro, casa, casamento, filhos. Grande parte de nós acreditamos que quando alcançarmos estes pressupostos, temos “a vida feita” e o que vier é lucro! Pois entretanto foram deixados para trás os chamados sonhos, muitos desejos foram frustrados e a realização pessoal não é a que se esperava. Será que bastarmo-nos  com o que é esperado não nos distrai de tal forma que desviamos a atenção daquilo que realmente gostamos, precisamos, queremos?

Não sei a fórmula para a felicidade, nem tão pouco posso afirmar qual é a melhor atitude que se pode ter para com as nossas aspirações. Do que me apercebo é que me leva a questionar se não estamos maior parte de nós a procurar metas erradas, influenciadas por massas quando todos temos a nossa idiossincrasia, tão díspar e valiosa. Parece-me injusto para comigo própria seguir mais um grupo de pessoas que provavelmente estão alienadas pois não se sentem felizes do seguir a minha motivação interna. Tudo bem, temos obrigatoriamente que estabelecer regras e submetermo-nos a condicionamentos para nos integrarmos na sociedade. Mas esta está em crise, não só económica mas principalmente de valores (os que são realmente importantes), está doente, por isso até que ponto não é salutar questionarmos a sua viabilidade enquanto civilização de sucesso?

A minha intenção inicial com este texto era a de confrontar a estabilidade aparente em que muitos vivem (e outros desejam) e a instabilidade/inconstância natural e inerente à própria existência, no sentido de perceber de qual das duas situações se pode tirar mais proveito.

Ora na sequência de uma vista de olhos pela estabilidade em que se crê atualmente (sim é uma crença), passo para uma reflexão mais elaborada sobre o que é “viver no limbo”, situação tão temida, cujo medo dela proveniente nos leva tantas vezes a tomar decisões que são erradas pelo facto de não as querermos tomar, de não serem opções para nós mas simples obrigações sociais, por exemplo.

Pois para mim, viver “no limbo” leva a um ponto ótimo de atenção, proporciona o estado emocional mais saudável e realista que se pode conquistar, se soubermos gerir tudo o que surge, se tivermos recursos para reagir sempre que é necessário. Esses recursos sim são valiosos e eles sim deviam fazer parte da nossa educação e formação como pessoas, como adultos e cidadãos. Prepararmo-nos para a vida não passa somente por nos tentarem transformar em máquinas de fazer dinheiro pois esta premissa cai por terra quando este falta, quando é necessário flexibilidade, adaptação e união.

Para explicar melhor esta instabilidade saudável de que falo faço uma pergunta: quem reage melhor a um acidente, mudança de planos, morte de alguém próximo, divórcio, pobreza, etc  – aquele que atingiu e se segurou no seu sucesso, que sempre viveu uma vida de conforto, que acreditou que o seu bem estar era um estado permanente e praticamente inabalável ou alguém que teve de ter muito jogo de cintura para se aguentar, que teve de encarar, lidar e ultrapassar várias situações precárias, aquele que deu valor a momentos sabendo que eram apenas isso e esperou sempre melhorar sem procurar a perfeição?

Desenvolvendo melhor a ideia, o que confronto é principalmente a atitude perante o que nos acontece, o que temos, o que esperamos, mais do que a experiência em si porque em casos de dificuldades permanentes e graves na estrutura de vida de uma pessoa, esta resiliência não é tão frequentemente observada. Mas aqui também volto a relembrar que se a sociedade não se baseasse nas finanças mas na humanidade, as estruturas familiares, de comunidade e saúde seriam certamente mais sólidas e funcionais.

Autor/pessoa a admirar à luz desta teoria: http://bfi.org/about-bucky/biography

Outro texto sobre o tema da base económica que sustenta o sistema vigente: http://pontodindignacao.blogspot.pt/2012/05/estado-de-vigilia.html

Conclusão: Vivemos todos “no limbo”, mas nem todos temos essa consciência, maior parte de nós vive num quarto sem janelas, com uma porta que nem sempre está aberta!

P.S. Curiosa (post scriptum), fui ver o que se andava a escrever sobre o limbo e voilá http://elefantecinzento.blogspot.pt/2006/04/no-limbo.html - talvez uma mensagem mais clara sobre o que pretendia transmitir!

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Migalha de pão


Somos parte de um todo, eu sei, somos uma migalha de pão. Mas lembro-me melhor quando o sol clareia as ideias, quando o despertar muda, para além do humor, a energia para encontrar soluções, para voltar a sorrir se a noite anterior trouxe desapontamento.

“Hoje estou como o tempo” – frase tão ouvida pela vizinha de baixo, pelo colega da secretária ao lado ou de uma amiga ao telefone. Não é tão comum tomar atenção ao seu significado – uma perspetiva holística (agora na moda), não se devia referir apenas ao corpo/mente humana, há sempre um contacto direto e interveniente com tudo o que nos envolve. Tão óbvio e tão esquecido. Nunca deixamos de interagir, nem por um segundo, com o ar que respiramos ou com as bactérias que se instalam na pele, a título de exemplo (para que se torne claro). O corpo, as emoções, a fisiologia, eu, tu, a lua, o sol, são um só, divididos em subsistemas. Imagino que Júpiter não terá a mesma influência em nós que a luz solar a que estamos expostos diariamente, mas pertence igualmente ao sistema de base e decerto que poderá intervir no nosso habitat de forma devastadora se um dos asteróides que circula à sua volta se desviar da sua órbita.

Abandonamos a teoria Geocêntrica e substituímo-la, a jeito de anagrama, pela Egocêntrica. Ou seja, não houve uma evolução global da mentalidade e da lucidez que nos permita estar mais perto da realidade de nós mesmos, de onde nos inserimos e de como se processa esta relação. Olhamos e cultivamos mais o “nosso umbigo”, apesar de posturas divergentes estarem a ganhar uma presença notória.

Isto tudo para relembrar que não podemos contar só “connosco” para viver bem. Da planta do jardim da rotunda, ao cão do filho da cunhada, passando pela brisa da manhã que nos faz pingar o nariz, dependemos todos da sua ação sobre nós. Contudo, o mais acertado não será tentarmos controlar todas as variáveis que nos rodeiam, pois seria tarefa árdua… A alternativa ao controle é o usufruto de que podemos beneficiar se preservarmos o que se encontra ao nosso alcance. Desde as relações sociais às ecológicas. Falo de uma evolução consciente, dentro do ritmo e limites possíveis. Aí sim poderemos colher bons frutos!

Estas reflexões (que muitas vezes derivam da satisfação que me dá a simples luz do dia) funcionam como alertas para a minha consciência e o mesmo espero, para aqueles com quem as partilho.

sábado, 27 de outubro de 2012

O valor da ingenuidade


É a ingenuidade que alcança os grandes feitos. É ela a capaz de grandes mudanças. Ela é arriscada, crê num mundo melhor e faz por isso. Ela perde tempo a pensar no que outros, mais "experientes", consideram desperdício… Ou porque não há grande probabilidade de sucesso, ou porque “não é assim tão fácil”… Se fosse fácil não seria idealizado, já tinha sido feito.

A ingenuidade não nos deixa estagnar num pessimismo que responde “nunca pior” ou “vai-se andando”… Ela responde: “Está a caminhar para melhor, eu vou/vamos chegar lá!” Esse lá pode não ser o previamente definido mas decerto será um “lá” melhor que o “aqui”. Ao colocarmos metas ambiciosas, de difícil alcance, pesquisamos meios, desenvolvemos recursos, obrigamo-nos a pensar em alternativas, a ponderar questões que fazem todo o sentido colocar! Nesse caminho, adquirimos uma aprendizagem valiosa, uma experiência que não nos impede de voltar a ser “ingénuos”, mesmo que o resultado de todo o esforço não seja o esperado, porque sabemos que com essa qualidade podemos ganhar muito!

Ao fintar o anseio


Não soube dizer-te o que queria. O que sentia permanecia amordaçado, entre a dúvida e o medo. Alguns ímpetos levaram-me até ti e, enfrentar-te, não foi como imaginei. Paralisada, todos os segredos se mantiveram aprisionados. Não houve sussurro ou sugestão que os soltasse. Queriam gritar, fazer-se notar - o silêncio impôs-se.

Cada momento, sabia-o escasso e por isso repelia-o. Recusava-me a estar ali, com todos os sentidos. Preferia observar, manter-me ausente. Via-nos numa tela onde desenrolava o filme. Distante, não estendia sequer os braços para que não me agarrasses. Tentava fugir enquanto me olhavas.

No entanto lembrava-te, vezes sem conta procurava-te, nessas memórias em que não estive presente.

(Another "message in a bottle")

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Nos contornos da escrita (de um prisma grafopsicológico)



Desenho-te com as letras do alfabeto, em cada curva uma lembrança, a cada ângulo uma dor. A tinta que borra o papel é paixão que o impregna. Deixo a minha marca para me dirigir a ti, para tirar de mim a parte que te pertence.

Quero que leias. Não só as palavras. Quero que me vejas dançar nesse ritmo que me caracteriza, difícil de classificar.

Ouve-me respirar nos espaços que crio e neles também a distância de que necessito, sente o meu medo. Nos passos, vê as minhas hesitações, os meus malabarismos... Se olhares bem, consegues perceber como me equilibro. Onde coloco os pés, as mãos, ou os pés pelas mãos…

Entende as minhas aspirações, compreende-me melhor quando não controlo os impulsos. E se salto, faço-o por precaução ou sensibilidade.

Tiro a roupa e prevalecem os contornos do que sou, do que quero e tento ser. Com uma lupa poderás até observar a minha saúde.

A sinceridade não é aclamada, revela-se.

Despida do que tento parecer, não tenho muito por onde escapar. Ignoro o observador.

Não me sinto ameaçada mas livre, para me expressar!

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Relationships are like slot machines


Relationships work like slot machines. No matter how much you invest in it, you never know what you will get. Expectations grow when you receive a "bonus" but in an instance they blow away because monotony takes place.

O "inglês" pareceu-me a melhor opção para explicar esta analogia. Talvez porque a nossa cultura não abrange os mesmos conceitos ou simplesmente porque me apeteceu variar.

Esta frase dava pano para mangas mas acho que ficam subentendidos os elementos em comum entre ambos e assim também aguço o raciocínio e imaginação a quem se quiser debruçar sobre ela.

Não é uma atividade habitual, talvez por isso mesmo, quando joguei há uns dias atrás, não pudesse ter evitado esta relação.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sal marinho


Lembrei-me da tua voz salgada. É incrível o quão difícil é traduzir a sensação que a simples lembrança provoca em palavras, mesmo gostando tanto delas. Posso caracterizá-la mas não lhe posso dar nome. Posso falar de outra sensações que vêm com ela...

Calor, abraço, ardor, arrepio, sinto-a na pele e a dirigir-se para mim. Já não traz mágoa, mas saudade(?) ou algo parecido.

Evoca memórias de olhares quentes, flamejantes, cujo magnetismo impregnava sonhos, fantasias.

No pescoço é como uma mão de seda e a alma entrega-se ao flutuar das ondas que o sopro faz. Percorre cada recanto deste corpo agora rendido às recordações.

Escuto-a baixinho mas com timbre intenso e sabor forte.

Como um fóssil, marcado num búzio que reproduz sons que uma vez ouviu.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os meus olhos não vêem a preto e branco - parte 2


Hoje cansei-me do mundo. Só hoje. Talvez também há uns dias atrás e com certeza daqui a alguns dias à frente. Cansei-me do mundo “tal como ele é”. Hoje quis pintá-lo com as minhas cores.

Parece tratar-se de uma regressão quase premeditada e consciente, uma “trip” sem o auxílio de substâncias exógenas.

O que vejo faz pulsar o sangue com mais força, não consigo evitar um sorriso aberto e um amor estranhamente incondicional surge (não, não tomei LSD, volto a salientar).

A criança de que tanto falam (aquela que permanece em nós), dá pulos de contentamento, sem razão aparente – lembram-se da sensação?

Não há nada (para mim), no mundo tangível, capaz de me proporcionar gratificação maior do que a ingenuidade (até certo ponto), do que esperar sempre o melhor (quando a probabilidade real é fifty-fifty), do que rir sem motivos “válidos”, do que esquecer a lógica por instantes!

Não há satisfação igual à ilusão de que somos especiais, de que os outros nos reconhecem como tal (a família não conta – neste caso esta admiração costuma existir, mesmo que não manifesta), de que um dia vamos atingir um estado superior de felicidade imaculada! Quem nunca sonhou, por momentos, com premissas inalcançáveis? E que bem nos fazem sentir esses momentos, que descrevemos decerto como felizes.

Gosto de ter um pé na terra, mas preciso de outro no ar, para poder dar uns pontapés às amarguras!

Nota: Texto motivado por comentário à mensagem anterior.

domingo, 5 de agosto de 2012

Os meus olhos não vêem a preto e branco


O que seria dos nossos dias sem a ilusão? O que seria de nós se fizéssemos da realidade a nossa bíblia, o que será de mim no dia em que levar a sério as estatísticas pessimistas dos jornais?

Pobres aqueles a quem lhes falta o sonho, o otimismo pelo que há-de vir! Que força os fará dar mais um passo, com que coragem erguem o olhar a cada manhã!?

O espírito crítico nem sempre é voz do “realista”, quando este ajuda a baixar a cabeça e a aceitar o desânimo.

Quem sou eu se não contesto que não pertenço à percentagem de “desafortunados” que publicitam diariamente com orgulho mórbido? E se estiver em vias de o ser, prefiro não o saber!

Enquanto vivo neste mundo que pinto de colorido, sorrio mais e a vida retribui.

É prudente não abrir totalmente as cortinas, a luz do sol pode ferir a vista. E quem somos nós sem ela?


A título de exemplo, uma amostra do que os olhos com lentes coloridas podem criar: http://www.elperiodico.cat/ca/noticias/societat/video-curriculum-duna-professora-barcelona-latur-triomfa-youtube-2022521

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Até breve BCN


Uma miragem à primeira vista, uma cidade desenhada pelo mundo. Recheada pela diversidade, o seu odor traz pedaços de fruta, peles de tantos sabores, bocados doces de bolachas trincadas pela metade que hoje cheiram a despedida. Mastigo tudo com o olhar, agora que já sei a que sabe.

Nao é ingénua e eu já fui mais. Observá-la assim pinta-me os olhos de tantas cores...

E como um arco-íris fugaz, aceno-lhe: até breve Barcelona.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sussurros da liberdade


Tomo o primeiro banho de mar do ano entre ondas desconhecidas, ao meu lado, o rosto também não me é familiar. Estranhamente sinto-me mais calma e satisfeita do que envolta em lençóis de alfazema, parece que não sei onde estou e não preciso de saber. Compreendo que a sensação de maior segurança provém de uma exposição ao "perigo" que se torna libertadora. Quase que se ouve, sussurrante: “Vês, está tudo bem, nada pode correr mal enquanto és livre!”

Beijos descomprometidos, olhares promissores, lançam a chama de um fogo do qual não se pode ter medo, é a “luz ao fundo do túnel” que nos leva a percorrer caminhos.

domingo, 10 de junho de 2012

A braços com o amor


Procuro o amor em que acreditei. Tinha uma crença profunda e agora resta a esperança de que fosse verdadeira. Essa esperança faz-me errar, faz-me ver o amor em caras feias, espíritos moribundos. Procuro o seu conforto e plenitude (embora fuja das suas amarras) e por isso confio em braços abertos. Mas esses braços deixam-me cair…

Magoo-me e levanto-me em busca de um novo abraço. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Hospedeira


Não interessa de onde vem nem por quem. Como ou porquê. É um sentimento que ganha vida própria e faz esquecer a lógica. Sinto-me bem e isso basta. Há uma realização plena que não precisa de razões para existir, nem de motivos válidos. Chega e torna qualquer um humilde e satisfeito.

A melhor forma de aproveitar a vida nem sempre passa por equações ou reflexões profundas. Todos os estados, e também este, são voláteis, temporários mas alguns gravam em nós a capacidade de ser feliz.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Arrumações


Hoje decidi arrumar (um bocadinho) a prateleira. Sem obsessões, é saudável e imprescindível, viver num ambiente “desanuviado”. Pois bem, achei que este blog precisava disso mesmo, de levar uma "arejada"! Para que isso acontecesse, mudei-lhe o visual e (não satisfeita) limpei algumas mensagens que me pareciam descontextualizadas. Mas porque o que escrevo tem, pelo menos para mim, um significado e propósito, optei por não as deitar ao lixo. Coloquei separadores.

Criei um novo blog (disponível do lado direito) que não vou atualizar por obrigação, pelo contrário, como cada mensagem surge de um desejo quase compulsivo, só tenho de a encaixar no sítio certo quando isso acontecer. Até!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O tempo não passa, existe - o passado reinventa-se


Os odores que o vento traz… Memórias e fantasias ao inspirar. Cada passo deixa uma pegada e os trilhos desenhados, são marcas do futuro. O esqueleto cresce sozinho de um projeto cuja arquitetura se desconhece, mas não se desdenha. O tempo também não se decifra, acontece.

O compasso que delimita o segundo é o mesmo que detem a imagem numa fotografia, admira-se de tão irreal ser a estátua do momento.

Nunca foi, é. O movimento existe perene, renova-se e persiste. Por maior que seja a ambição de agarrar uma nuvem, a sua inquietude, apesar de leve, não permite. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tempos que se cruzam, mentalidades que urgem


Tinha medo do escuro. Agora procuro a luz, sabendo que no trajeto passo por corredores sem ela. O frio não faz esquecer o calor que me espera.

O sacrifício é peregrino que almeja um bem maior.



(A utilização da 1ª pessoa aqui não é mais do que uma questão prática na tentativa de transmitir a consciência coletiva – pensamentos do antes e do agora, 38 anos de distância que colidem num tempo paralelo, o da imortalidade dos valores isentos de época e de costumes.)

domingo, 22 de abril de 2012

Um dia complicado... e ainda bem!


Sexta-feira de madrugada, o despertador já não tocava tão cedo há uns tempos. Estranhei mas levantei-me num ápice, yes sir! Ele é que manda e se duvido (por pouco que seja) da sua autoridade, não faço caso aos compromissos. (E é do melhor sono que há, o sono proibido…). A verdade é que não hesito no momento de despertar e deixo as ponderações para depois. Começo a organizar-me e a perceber se tenho realmente um motivo válido para tal esforço. Ah sim, verdad! Motivo-me, imagino-me a passear no meu “novo mundo encantado”, a reencontrar caras que já me são familiares e agradáveis e a ouvir a tão caricata pronúncia catalã, com a qual também já estabeleci empatia. Ok, é por uma boa causa, vamos a isto!

5h30. Não encontro a porta de embarque, que a esta hora já é costume estar assinalada. Vou verificar o painel e, estranho, BCN é na porta 15 mas lá diz Madrid?? É o tal problema de nem sempre estar conectada com o que se passa em volta… A greve dos controladores de tráfego aéreo já tinha começado no dia anterior e continuava neste mesmo dia, até às 10h! Ora se o meu vôo era às 6h40… bad luck. Bem, vou aproveitar para dormir mais um bocado. 
Acordo com um empurrão de rabo nos meus pés e levanto-me sobressaltada. O encontrão foi dado por uma senhora que aparentava ter parentesco com a família real inglesa e (talvez por isso) não se incomodou em pedir desculpa, nem sequer a dirigir-me um olhar. Para ela eu era como um sem abrigo que se tinha aproveitado da confusão do aeroporto para passar despercebido. Imaginei que para estes não seja fácil lidar com a indiferença constante de que são alvo.

Decidi passear pelas lojas duty free e livrarias (se se podem chamar assim). Já não estava impaciente porque consegui a oportunidade de ler sem horas curtas e cheirar perfumes indiscriminadamente. Hmmmm… Depois de encostar o nariz a uma dezena de frascos de odores triviais, eis que surge um divino! Precipitei-me a perfumar-me discretamente. Suave mas quente, envolvente... não era frutado, tinha parte floral (lavanda) mas com certeza também óleos de madeira (talvez sândalo).

Mais uns passos à frente, Internet free, onde aproveitei para mandar alguns "bitaites" no FB e perceber melhor as razões que motivavam os controladores de tráfego aéreo a serem tão cruéis! Cheguei à conclusão que têm motivos válidos por isso o meu grau de aceitação do que se estava a passar foi maior a partir dali.

Música num dos ouvidos, bora pra porta de embarque, já são as 11h30 e tinham previsto embarque às 11h40. Optei por Abege, achei que zouk poderia ajudar-me a manter a paciência.

Em apenas dois idiomas (português e inglês), avisaram que o vôo para uma cidade francesa (cujo nome não me recordo de momento), realizaria o seu embarque noutra porta. Até ali estava apontado para a mesma que Barcelona, porta 15. Entretanto, apercebi-me que a senhora à minha frente era francesa e estava atarefada com o filho aquando o aviso.

- Excuse me, do you speak in English?
- Yes, a little. – respondeu de sorriso atento.

Informei-a do sucedido mas a senhora, dos seus 40 anos, de brilho jovem e mente esperta, ia para o mesmo destino que moi.
Demonstrou-se muito agradecida de qualquer forma, reconheceu a boa intenção, e aproveitou para “esticar as pernas” da comunicação e puxar conversa comigo. Ao contrário do que é costume nestes contextos, em que às vezes surge o constrangimento da necessidade de desenvolver uma conversa fluída e interessante (e nem sempre é essa a vontade), a naturalidade do diálogo foi imediata e estávamos atentas e curiosas ao que cada uma contava. Concluímos que o espanhol era o idioma em que nos entendíamos melhor e a simpatia entre palavras foi realmente genuína. Entendia-lhe no olhar que sintonizava com o meu raciocínio (coisa que nem sempre é fácil) e nunca o meu espanhol fora tão experto. Há nesse entendimento mútuo um conforto impossível de descrever com precisão.

É-me muitas vezes difícil identificar-me com outrem, apesar da empatia se gerar com alguma frequência. Chego a pensar que é uma fantasia inconcretizável encontrar amigos com quem realmente me identifique, por mais afeto que sinta pelos atuais. Simpatia, compaixão, interesse, atração, acontecem aqui e ali, sente-se e deixa-se de se sentir num piscar de olhos. Vontade de partilhar, de me dar a conhecer, de manter o olhar e de me despir de tiques sociais por os considerar desnecessários, posso contar pelos dedos de uma mão as vezes que aconteceu rápida e espontaneamente. 

O que tínhamos em comum, Milène, uma francesa que veio visitar a irmã que vive em Aveiro, acompanhada de seu filho Yannis de pele morena e bochechas rasgadas pelo riso e uma portuguesa que aspirava decifrar a psique humana através das mais variadas invenções? A resposta não foi desvendada mas com certeza que existe muito. Completar frases, exclamar indignações e ter o seu retorno instantâneo, gargalhadas que não se contêm e olhares que não incomodam, dão algumas pistas do quanto nos identificamos prontamente. Havia ainda uma maturidade na sua conduta (que não se encontra em todas as pessoas com 40 anos, não) que em vez de me intimidar me fez admirá-la mais.

Ajudei-a a disfarçar a mala oversized, apesar de não me ter pedido; fui cúmplice quando acendeu um cigarro na zona exterior (onde não é permitido) enquanto esperávamos que a fila andasse – não era deste tipo de maturidade/responsabilidade que falava há pouco. Preocupou-se em certificar-se que me sentava a seu lado no avião.

Já no boeing 737-800 aircraft, estava moída, precisava de descanso e até nisso nos compreendemos, ela de certo também sentia o mesmo e a conversa sofreu uma pausa. Não conseguia dormir por isso pedi emprestado um jornal que um conterrâneo lia. Virando páginas, fui comentando quando reparava que surgia alguma curiosidade do meu lado direito, onde estava sentada a minha mais recente “amiga”.

Entretanto referiu que depois daquela viagem ainda iria de carro até Montpellier, onde vive. Manteve la mirada un rato e acrescentou que seria muito bem-vinda em sua casa, onde costumava acolher estrangeiros, maior parte das vezes oriundos de países nórdicos. Trocamos emails e prometi-lhe que também lhe mostrava o “meu” Porto um dia em que tivesse oportunidade de voltar, uma vez que esteve em Aveiro grande parte do tempo e deu apenas um salto a Lisboa, ficando a vontade de regressar a Portugal para conhecer a Invicta para além do seu aeroporto. 
Por baixo do email, a assinatura. Já não consigo evitar o olhar indiscreto a cada vez que alguém se expõe de tal forma, tão natural e inconsciente. O apelido saltava à vista, em maiúsculas. Os meus professores (da pós-graduação de Grafoanálise que frequento) alertaram para não fazermos juízos através de uma assinatura isolada, sem texto, porque a sua análise depende dessa comparação, mas arrisquei: “Muito orgulho pela família da qual descende!”, comentei. Surpreendida e impressionada, respondeu-me: “Muito!!”  Provavelmente não seria só esse o motivo de escrever o apelido em maiúsculas mas foi o suficiente para estreitar (ainda mais) a confiança.

Despedimo-nos no comboio, sairia uma paragem depois de mim. Já após a despedida oficial, procuramo-nos mais uma vez, esticando o pescoço, para acenar com vigor um sincero até já.

Chegada à faculdade, atrasada porque ainda fui enganar a fome, tarde e a más horas devido a tamanho atraso do vôo, a minha colega mais próxima lançou a observação: “Oye! Te veo más alegre hoy!” Ainda gracejou que pensava dever-se a alguma interação mais íntima que pudesse ter tido. Pareceu confusa com a minha resposta: “Tive um dia complicado hoje… e ainda bem!”

Há encontros que provocam um bem-estar de efeito prolongado, tão ou mais gratificante que qualquer outro tipo de satisfação humana.

E as complicações, por vezes, levam-nos por caminhos mais interessantes do que o previsto!


sábado, 21 de abril de 2012

Desabafos de momento


Deixei de querer acreditar. Achei mais sensato contentar-me com o dia-a-dia comezinho, a seguir a rotina de um emprego, a tapar os problemas com a peneira. Mas estes, como o sol, queimam enquanto persistem. E a pele torna-se fina, mais sensível  depois de lesada.

Esforçei-me para me alegrar com “o pouco que tenho”. Afinal é muito, é quase um crime lamentar-me nestes dias em que ter patrão, local onde me aconchegar, comida e excentricidades pontuais (ou semanais), é ser privilegiado.

A pirâmide de Maslow e as suas descritas graduais necessidades, é hoje utopia para grande parte da população. O presente tratou de erodir as camadas superiores e a pirâmide virou planalto. Também eu me resignei a vê-la  assim, cortada.

Cortadas foram também as ilusões de que o mundo era perfeito com os seus erros. Nem sempre consigo manter a visão de que tudo é aprendizagem útil e rentável. Às vezes o desânimo toma lugar. Não por muito tempo mas com algum peso que me atrasa o ritmo. Atrasa-me o passo.

A certeza de que construir o futuro estava nas minhas mãos alterou-se para a aceitação de ter de me adaptar às intempéries e que isso, por si só, já é feito louvável.

Tenho força, tenho sonhos, mas a luta pela “sobrevivência” cansa-me o espírito.

(Como quem bufa para expulsar pensamentos pesados e tensões acumuladas.)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sobre a dualidade - do bom ao vilão


Não sou inocente mas gosto de acreditar. Gosto de acreditar que existem boas intenções ou, pelo menos, que não existem assim tantas tão más (quanto se diz). 

Posso ler sinais de alerta, perceber comportamentos desviantes mas tento justificá-los com motivos que valido, mesmo que o próprio sujeito não se defenda. Sinto-me melhor assim, num mundo não tão negro quanto o pintam.

Continuo a defender o fifty-fifty: metade da amostra de uma população não será tão fácil de lidar quanto a outra. Mas o que é isso de ser “mau”? Ter maldade? É-me difícil imaginar alguém que nunca sentiu inveja, ódio, desejos “proibidos”… Parte de nós contém-se ou sublima estes sentimentos e emoções, outros reagem indiretamente e o prejuízo não é tão “automaticamente” visível, outra parte, a apelidada de desviante, cede aos impulsos sem medir as consequências (ou se as medem dão-lhes pouca importância). O conteúdo emocional é o mesmo, o chamado “fundo” não me parece mais “bonito” nalguns do que noutros. A diferença está na forma como se lida com a turbulência que se cria interna e naturalmente. E isso é o mesmo que distingue o bom do mau? Ou o amistoso do vilão? Nem todos temos mecanismos e recursos para gerir os problemas da “melhor” forma e, nestes casos, talvez se borre mais facilmente a pintura mas…

Por detrás da antipatia mais áspera e do comentário mais irónico e até de rancores declarados, podem-se encontrar qualidades humanas mais “louváveis” do que no fundo de sorrisos e discursos hábeis. Por detrás do primeiro pode estar uma criança assustada (passo o cliché) que se foi conseguindo defender assim, face a um meio hostil, enquanto que o segundo provavelmente teve mais oportunidades para se colocar na posição de observador e aprendeu por modelagem quais os comportamentos mais reforçados socialmente. Será que se pode denominar este tipo de desenvolvimento de mais evoluído? Numa opinião pessoal, arrisco discordar. Vejo a evolução como um sistema em que se promove a harmonia (que não é cor de rosa) através da compreensão e adaptação profundas entre uns e outros. Aprender a encaixar, a discutir na tentativa de chegar a um consenso (ou pelo menos de entendimento entre as partes), ser menos gentil (porque nem sempre é fácil) mas saber compensar, sentir-se frágil e poder dizê-lo, acolher a vulnerabilidade dos outros sem tirar proveito desta mas se isso acontecer, reconhecer a própria fraqueza e expôr as suas razões (se conscientes), poder ser orgulhoso mas evitar ser inflexível, ser franco(!), não é procurar a perfeição mas o equilíbrio. O que para mim não é o mesmo que manipulação (que associo ao caso da amabilidade artificial referida anteriormente). O exemplo da balança agrada-me. Pelo contrário, não considero evoluído aquele que aponta e exclui quem não se assemelha a ele próprio.

Na terapia de casal fala-se de cedências, já se chegou à conclusão de que uma parte não faz o todo e de que o trabalho de melhoria tem de ser feito em conjunto. Porque não aplicar esses conhecimentos/conceitos a um nível global ao invés de se seccionar os maus dos bons, os fracos dos fortes e por aí em diante..!? Eu apostava numa terapia mundial (o problema seria arranjar terapeuta e não o excluir).

Desenvolver a inteligência emocional que pode começar por melhorar o autoconhecimento, a ponto de erradicar projeções e “o outro” tornar-se mais claro para nós. Como um surfista tenta equilibrar-se nas ondas, a consciência pode tentar domar as vibrações mentais provocadas por tantos estímulos intrínsecos e por outros aparentemente externos. Acredito que só a tentativa já vale a pena e pode provocar diferenças benéficas. Mas como não posso mudar o mundo (e se pudesse não garantia que fosse para melhor), fica a reflexão e o esforço diário em adaptar-me às tempestades humanas.

domingo, 25 de março de 2012


O sol não desapareceu mas eu sinto a sua falta. Falta-me a sua luz apesar de saber que esta volta dentro em breve. A sua falta escurece-me a alma e acorda-me os fantasmas. Tão dependente e influenciável e por outro lado tão alegremente “solitária”. As contradições convergem numa mesma personalidade que se exalta na tentativa de se compreender.

Uma manhã no Barrio de Gràcia


Perdi-me no Barrio de Gràcia. Era previsível e foi quase premeditado. Paragem de metro Fontana, Carrer de Verdi, eram as únicas referências. O resto queria desvendar. De máquina fotográfica na mão (digital mas pouco sofisticada), qual arma em punho, disparo casa sim, casa não. Fachadas, portas e janelas, comércio, ecologia, praças e catalães, ditos escritos, cães que esperavam fielmente os seus donos à porta das lojas. Não me tinham enganado, aquele bairro tem charme, um encanto diferente, autêntico. Ali sente-se Barcelona (na sua faceta mais catalã) e contacta-se com o povo que a define.

As imagens podem explicar melhor do que falo: Barrio de Gràcia


sábado, 17 de março de 2012

Grata

Ufa! Depois de ultrapassada a agudeza do orgulho e da impotência, paira a serenidade. Respiro melhor. Não suspiro, inspiro!

Permaneço sentada na traseira de uma carrinha de caixa aberta enquanto esta acelera por estradas poeirentas. O olhar vê o que fica para trás a diminuir de tamanho... Cada vez mais pequeno.. E longe... Até que já não consigo perceber as formas das casas e dos planaltos. As montanhas distinguem-se mas rodeadas de névoa, o que as faz parecer miragem.

Deixo-me embalar com a trepidação. Fecho os olhos de tão confiante que estou na condução do motorista...

sexta-feira, 16 de março de 2012

Ouvir o silêncio e suspirar

Há silêncios que dizem tudo. Há silêncios que respeito mais do que qualquer afirmação que pudesse contestar. Podem desiludir mas por outro lado aliviar. Podem ser desanimadores e pesar, gerar reflexão ou até preocupar!

Tal como o silêncio do que não se conhece, a solução está em aceitar. Não esperar respostas que podem nunca chegar.

De certa forma agradecer, o passo que eu não conseguiria dar!

Usufruir e renovar.

domingo, 4 de março de 2012

Nua e confortável



Espaço e meio de comunicação, tela em que me projeto e me sinto livre. Os olhares indiretos que me apreciam, fazem-no sem terem sido solicitados. A pressão é mínima, a tensão frouxa descontrai a imaginação e deixa-a brincar. Não há uma expressão facial que gere insegurança nem que interpele o fio que desenrolo sem intervalos.

Tão diferente é a nossa fluidez verbal dependendo do recetor. Este suscita uma quantidade de reações que influem direta e incontrariavelmente na nitidez e expressividade da mensagem que se pretende soltar. Alguns fazem-nos engolir em seco, outros tremer a voz, há quem incentive à discussão ou a continuar suspirar. Há quem simplesmente nos cale ou com quem não nos apeteça falar.

Aqui e agora "o leitor" sou eu mesma (que raramente sofro por antecipação e só depois do concretizar tomo atenção a todo o cenário circundante - foco, impulsividade, capricho(?)). Não temo o meu julgamento, estou habituada a ele e tende a provocar melhorias. Transcrevo o que penso sem me importar se alguém vai ler.

Dispo-me sem pudor, de forma quase ingénua, adolescente, sem uma intenção premeditada mas com uma vontade voraz, como aquela que me faz dar passos ousados.

Encontro-me cómoda para me expressar, me movimentar. Posso ocupar espaço sem pisar ninguém, num solo em blackout. Está escuro enquanto escrevo, a plateia está silenciosa a ouvir e não tenho de a confrontar no mesmo momento em que me concentro.

São as vantagens das letras escritas nos bastidores comparativamente às palavras proferidas num palco.

De cariz egocêntrico, é a minha relação satisfatória com as folhas em branco.

sábado, 3 de março de 2012

- E o amor, acontece? (Do outro lado da porta)


Porta fechada. Dou duas voltas à chave, na segunda é preciso puxar a porta com força. Gesto diário até aqui. Repeti-o vezes sem conta, das primeiras com pouco jeito mas tornara-se automático rapidamente e já nem dava por ele. Aquele pequeno esforço acrescido já fazia parte do quotidiano, de tal forma que não me queixava por ter de o fazer. Também me habituara a reconhecer a expressão da minha colega, logo ao abrir da porta, já ela estava a trabalhar há uma hora quando entrava eu fresca e o sol me denunciava.

Por aquela porta vi entrar muitos corações palpitantes, outros cansados e ofegantes, tal era o caminho atribulado por que passaram até chegar ali. Olhei através dela, por vezes confiante, outras receosa (acredito que não mais do que quem esperava do outro lado), umas centenas de vezes.
Aquela porta tem uma história, aliás, tem muitas. Representa para alguns um passo doloroso, outros traquinas, olhavam-na como a um brinquedo. Um friozinho na barriga devia causar a maior parte de quem a desafiava. Uma tableta pendia com fotografias de homens e mulheres belas, estereótipos de sorrisos jucosos fitavam quem os confrontava naquele momento, era um espelho distorcido, artificial.

- O que estou aqui a fazer? mas as mãos trémulas já se tinham precipitado para a campaínha e agora era tarde para voltar atrás. Alguns faziam-no mesmo assim. Abria-se a porta e nem rasto para seguir. O alívio da fuga devia ser tanto que não voltavam sequer a contactar. “Ufa, desta já me safei, afinal não sou nenhum desesperado!” Desesperado. Há palavras de que temos medo, até se evita proferi-las não se vá tornar familiar!

Noutras ocasiões abria-se e, de sorriso cintilante (menos provocador que o dos modelos da publicidade), olhar recetivo, eram acolhidos por um sistema que os abraçava. Reformulo, eram acolhidos pelas funcionárias. Na tentativa de manter o peito aberto (porque estas também têm as suas reservas, umas mais que outras ;)), embalavam-nos até ao local onde se realizava a consulta. Consulta de análise de processo. Soava a algo rigoroso, clínico e até ameaçador para alguns. “Eu não preciso de nenhuma consulta, fiz análises há pouco tempo” – ouvi algumas vezes por um dos 6 telefones que tínhamos.

Nenhuma de nós era hábil no disfarce das emoções e contenção do “reagir” quando nos admitiram. Lembro-me da entrevista e de como estava tão entusiasmada que esse brilho ofuscou quem me fazia as perguntas e não reparou nas minhas falhas técnicas. Certas características que se eu soubesse de antemão que eram valorizadas (e necessárias!) talvez não me tivesse candidatado (não por seletividade mas pelo medo do fracasso). Aprende-se. Não digo facilmente, forçosamente. Tenta-se, com os próprios recursos, aproximar a performance ao ideal desejado, da mesma forma que quem foge de um leão consegue correr mais do que imaginava e quem naufraga sem saber nadar, flutua.

(Continua... - noutras folhas)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Devaneios contidos


Amordaço o instinto. Sentado não tem forças para se debater. Tento tirar esta roupa suada, colada ao corpo. Está tão grudada que a rasgo com as unhas. Apercebo-me de que o que tento arrancar não é tecido, mas pele. Arranho-me mas insisto. Relação bulímica com estas sensações, prazer que frustra. Zango-me com a permanência do sentimento, não fica mas vai e volta, ondulante. Perturba. As palavras são impotentes. 

Devaneios acendidos por um rastilho sem corda.

Inodoro - sentidos ocos



Muda. A nudez crua de uma pendência ambígua. Esfria na pobreza de palavras sem timbre. Uma voz por escutar que questiona a audácia do pedido. Pedido ou deixado nos dias de silêncio puro. Pureza que cristaliza e confunde. 

Mensagem vazia que ecoa no vácuo, retorno que frustra pela insatisfação dos sentidos.

Danço enquanto a música parou.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desde aqui, do terraço



Não me contento com a insatisfação, não me contento com a ignorância. Apesar de saber que ambas são infinitas, tanto quanto o próprio conhecimento... Nesta jornada em direção ao final do arco-íris, deixo-me deslumbrar. É de uma jangada que baloiça que olho o céu e tento perceber o Universo. A minha visão é limitada, mas incansável.

O desejo aumenta, floresce à medida que descobre. Não consigo alcançar o cume e por isso continuo, incessante. Corro sem me cansar. Alimento-me da vontade, perco o sono e a fome.

Paro só por um momento, contemplo o que encontrei até aqui. Guardo bem as recordações e as aprendizagens, o que já vi tem tanto valor como o que está por desvendar. Com o entusiasmo e tentativa de acelerar o ritmo, alguns papiros perdem-se, voam até ao passado e por lá ficam. É em vão que tento recolhê-los. Outros apresso-me a resguardá-los no cofre que escondo.

Não perco o fôlego, pelo contrário, encho os pulmões deste odor primaveril que me impulsiona a continuar.

Descoberta. Deixo-me estar assim porque não sinto frio. O sol bate quente neste terraço, repouso as minhas ideias e planeio construir uma escadaria com elas. Planeio empenhar-me em subi-las, em busca do caminho para onde me levam (lugar-comum acarinhado).

Terrazas fábrica Casaramona - Barcelona

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Brincar com plasticina




Dobra-se uma folha a meio, calca-se bem, com veemência e por várias vezes consecutivas. A seguir é fácil rasgá-la, por essa dobra.

Quando fazemos o mesmo caminho diariamente, quase que o conseguimos percorrer de olhos fechados, torna-se automático. A ida para o trabalho, o regresso a casa, subir as escadas até ao quarto, não interessa para onde mas quantas vezes vamos.

Se atravessarmos uma estrada de terra, repetidamente pelo mesmo trajeto, este vai ficar bem delineado e será até com alguma dificuldade que alteraremos a rota, de tão profundas que estão as marcas do chão (principalmente no caso do meio de transporte ser uma carroça).

O mesmo acontece no nosso córtex cerebral. Se se utiliza constantemente os mesmos “caminhos mentais”, estes vão-se tornar principais e salientes. Quando isto ocorre, cai-se facilmente nos mesmos “erros” cognitivos e mesmos pensamentos, utilizar um desvio necessário transforma-se numa tarefa árdua. Assim compreende-se melhor porque se torna tão difícil para um depressivo, um compulsivo ou mesmo um obsessivo (passo os termos, dado que normalmente censuro a “rotulação” mas utilizo aqui pelo sentido prático dos termos), encontrar alternativas de comportamento, soluções para problemas ou razões para mudar parâmetros segundo os quais regem as suas vidas. A mente fica como que viciada e mal habituada.

Recordo-me muitas vezes da importância deste processo porque assim se pode, até certo ponto, evitar o sofrimento crónico, o sofrimento derivado de situações que não dependem do próprio ou simplesmente que não têm uma resolução satisfatória. O quanto é útil expandir os horizontes, tornar a visão o mais panorâmica possível (porque esta será sempre limitada)!

Fazer contorcionismo com a mente (com algumas precauções para não “partir o eixo”), pode ser muito saudável. Saber que a quantidade de perdas e elementos negativos presentes (ou futuros) no nosso quotidiano, é (na maior parte dos casos) igual ou inferior aos nossos ganhos, é uma questão de foco. Este foco pode ser desenvolvido e educado, para que isso aconteça é necessário trabalhar a elasticidade do nosso órgão pensante. Este pode ser exercitado, tal como um músculo. Por isso, bora lá pro ginásio para aumentar a performance… E a alegria! 




Aproveito a deixa para introduzir o meu novo método de escrita neste blog. Porque "quem me dera" que fosse possível na realidade instantânea e porque aqui o é, vou passar a usar (e abusar) da funcionalidade "editar". Que não se admire quem ler um texto hoje e daqui por uns tempos o pretenda reler, que já não encontre a mesma "prosa", ou (quem sabe, porque ainda não testei os meus limites neste campo) até já nem encontre a mesma ideia inicial. Reinventar o suspiro... Ai ai, se o pudéssemos fazer com os dias que já passaram... "Cut!" Eu sei, perdia-se a espontaneidade, genuinidade, entres outras dades mas porque não simulá-lo aqui neste meu espaço virtual, de onde sai e entra quem quer, ao contrário do meu espaço físico onde devo respeitar as normas..?

Pretendo com isto completar o que considero lacunas, reformular a mensagem, eliminar disparates ou até acrescentá-los! Brincar com a plasticina era das atividades que mais me entretinha enquanto criança. Continuo a gostar...

domingo, 22 de janeiro de 2012

"Nem tudo o que reluz é ouro", mas...

Quem já jogou algum tipo de rpg (role-playing game), conhece aquela luzinha habitual que ilumina os objetos de interesse e de utilidade futura para o jogador. No jogo da vida "real" como que me acontece a mesma coisa.

As coisas, caminhos e pessoas interessantes têm um brilho magnético que me atrai e assim tomo maior parte das minhas decisões. Esse reluzir motiva-me para a ação e, normalmente, confirmo que "precisava" de ir por ali e que fico a ganhar de cada vez que sigo esse impulso. Até aqui não me arrependi dos passos que dei assim, sinto-me cada vez mais realizada e tomo contacto com perspetivas diferentes ao deixar-me levar pela vontade. Agarro esse feixe de luz (pode ser dourado) e ele puxa-me até onde nunca pensei ir. Abre janelas, através das quais vejo mundos distintos e deixo-me surpreender. A surpresa por si só já é uma gratificação que vale a pena. Vale a pena o esforço e o risco se aprender alguma coisa que modifique os meus parâmetros, se desenvolver a minha plasticidade e desbloquear barreiras pessoais.

Esse enriquecimento permite absorver melhor os estímulos que me envolvem, fico mais recetiva e o processo de crescimento torna-se mais rápido, com as regressões pontuais inevitáveis, naturalmente. Regressões essas provocadas, maior parte das vezes, pelo "tocar na ferida", por um reaproximar de traumas passados que como que empatam e estagnam a evolução emocional. De certa forma, este processo pode ser útil, pois relembra-me de que há pó debaixo do tapete que de vez em quando levanta, pelo que o melhor é aspirá-lo.

Acredito que há um ponto de equilíbrio que se deve procurar, entre a intuição e a razão, para se avançar para as decisões que serão mais benéficas. Considero importante rever as repercussões possíveis dos comportamentos, principalmente relativas aos outros porque a nós próprios estamo-nos sempre a proteger instintivamente. Esse malabarismo é um treino constante que traz boa-venturança e também deceções. Com o reforço e confirmação do estímulo interno mais certeiro, vai-se tornando mais fácil encontrar essa harmonia. A uma certa altura quase que se pode antever, "ah é mesmo por aqui que eu queria vir", nem que posteriormente aconteça uma desilusão, quem sabe esta era necessária...

Face a esta conclusão pode-se contra-argumentar: que bela forma de nunca ter sentimentos de culpa e de desresponsabilizar o sujeito da própria ação, protegendo o ego com justificações logicamente coerentes. E eu respondo: que bela forma de aproveitar a vida sem ter o peso do mundo às costas. Não esquecer: é temporária e curta!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Adição - uma fórmula de múltiplos vetores

A recente visualização de uma reportagem sobre uma "nova" adição deixou-me a pensar... E a questionar. Adição à internet. Já se fala no termo há algum tempo, a nível mundial, mas apenas há pouco causa comichão a alguns aqui neste nosso cantinho. Até já há terapeutas especializados na causa. Pois eu acho muito bem, as necessidades surgem conforme as alterações dos padrões de vida e hábitos do cidadão comum.

O que me deixou a pensar foi o facto de que atualmente tudo se rotula e especifica, deixando-se de parte uma individualização dos problemas e uma busca da verdadeira origem do surgimento de algumas "micropatologias". Com este termo (micro), não pretendo reduzir a importância nem a gravidade das situações mas sim alertar para o facto de que existe, com certeza, um "macro" problema por detrás. É mais fácil para os pais (sem os querer com isto culpabilizar - os filhos não vêm com manual de instruções e cada pai também é um ser humano, repleto de "defeitos" congénitos e de origem ambiental) apontarem a internet (por exemplo) como a causadora dos maiores conflitos e dificuldades dos filhos. Assim como é mais fácil para todos culpar o governo em vez da própria natureza humana, dos atuais problemas sociais. Isto sem querer desresponsabilizar ninguém em particular até porque sou muito indecisa quanto à minha orientação política...

Voltando ao assunto, considero que o nosso foco é demasiado isolado e pouco abrangente, em quase tudo, desde a Psicologia à Medicina em geral (certos medicamentos que "tapam o sol com a peneira"... entre outros). Não se pode dissociar levianamente uma mancha na pele de um problema cutâneo maior, nem este de um mau funcionamento do organismo em geral, como uma fraca imunidade, por exemplo.

É urgente distinguir quais os verdadeiros problemas da nossa geração que se refugia em jogos de computador, internet e outros estímulos de fácil acesso. Porque estes não são mais do que fugas e reflexos de dificuldades mais complexas. Talvez os efeitos secundários destes abusos sejam mais perigosos do que quem lê compulsivamente ou de quem dança como se não houvesse amanhã, é verdade. Em todos os casos, não existe prazer que se equipare, em contraste com uma insatisfação constante que assola os mais frágeis e propensos a uma adição.

A tecnologia pode ser uma forte aliada, mesmo no âmbito da ecologia, o que por sua vez promove saúde ambiental. Não vamos cair no facilitismo de a acusarmos de todas as maleitas da atualidade... Escusado será dizer que defendo que esta deve ser utilizada dentro da medida do razoável e não como um substituto da mão de obra (e convivência) humana, logicamente.

Importante seria apostar numa política de prevenção. Integrar e cultivar atividades e hábitos saudáveis desde "tenrinhos", pode ajudar a uma escolha mais benéfica de mecanismos de coping. A internet é um alvo fácil para quem procura um escape e não vê muitas alternativas, pois provavelmente não foi habituado a vê-las. É realmente difícil competir com os mídia, sob o ponto de vista da intensidade com que nos influencia a todos, mas para quem conhece um verdadeiro prazer na vida, sem efeitos adversos, não há fator externo que consiga dominar. Aqui entra a importância da arte, dos desportos (preferencialmente sem competição), onde se podem englobar inúmeras atividades que promovem o bem-estar, a auto-estima, a interação com o outro, todas elas essenciais na construção de uma personalidade sana. O investimento no amor ao próximo (e não estou a falar de religião, mas talvez de espiritualidade, embora concorde que a primeira tenha muitos pontos a favor, nalguns casos, mas ia divagar), numa boa socialização e educação, o contacto com a natureza, animais, (blá blá blá, porque isto não é novidade) também são pontos fundamentais.

Obviamente, não controlamos todas as variáveis externas que nos possam influenciar, a nós e aos nossos, mas no que depender da nossa ação e opção, há muito para fazer e o incentivo aos hobbies é apenas uma sugestão (e cuidado que estes também se podem tornar viciantes!). Não me identifico com discursos moralistas e encaro este texto como uma chamada de atenção ou uma simples reflexão.

Não é tão trabalhoso assim, para que seja preferível apontar o dedo à internet ou a outra adição de fácil acesso. É claro que fácil é falar, ou escrever, mas se todos tomássemos como responsabilidade uma maior atenção ao que realmente importa, ao invés de andarmos distraídos, possivelmente se evitariam algumas situações problemáticas. E porque é raro ligar a TV e ligar-me à net sem um objetivo específico, posso-me, de certa forma, orgulhar de assim conseguir uma maior consciência crítica do que se me deixasse programar, não querendo com isto dizer que seja uma forma mais correta de viver mas talvez mais "livre" (e ignorante - às vezes ignoro temas atuais dos quais é importante estar ciente. Bem, vou lendo o jornal!).

Isolamento social, bullying, complexos, carência afetiva, dificuldades na gestão emocional, são alguns pontos de fragilidade que aumentam a probabilidade do encontro com uma dependência. A estes não é preciso fechar os olhos e devem ser tratados na sua causa e não apenas nos sintomas. Também se fala do gene do vício, casos mais complicados. Mais uma vez, a adição pode ser encarada como um sinal visível de algo mais profundo, às vezes oculto. Concordo com uma maior preocupação e uma maior abertura dos olhos aos verdadeiros problemas, pois parecemos estar a ganhar o vício de encontrar novas modas patológicas, e este não deve ser fácil de travar

E com isto já passei mais tempo à frente do computador do que era suposto, e desejável.

Sim, contradigo-me algumas vezes, mas não as suficientes para me conseguirem fazer um diagnóstico :))