Quem já jogou algum tipo de rpg (role-playing game), conhece aquela luzinha habitual que ilumina os objetos de interesse e de utilidade futura para o jogador. No jogo da vida "real" como que me acontece a mesma coisa.
As coisas, caminhos e pessoas interessantes têm um brilho magnético que me atrai e assim tomo maior parte das minhas decisões. Esse reluzir motiva-me para a ação e, normalmente, confirmo que "precisava" de ir por ali e que fico a ganhar de cada vez que sigo esse impulso. Até aqui não me arrependi dos passos que dei assim, sinto-me cada vez mais realizada e tomo contacto com perspetivas diferentes ao deixar-me levar pela vontade. Agarro esse feixe de luz (pode ser dourado) e ele puxa-me até onde nunca pensei ir. Abre janelas, através das quais vejo mundos distintos e deixo-me surpreender. A surpresa por si só já é uma gratificação que vale a pena. Vale a pena o esforço e o risco se aprender alguma coisa que modifique os meus parâmetros, se desenvolver a minha plasticidade e desbloquear barreiras pessoais.
Esse enriquecimento permite absorver melhor os estímulos que me envolvem, fico mais recetiva e o processo de crescimento torna-se mais rápido, com as regressões pontuais inevitáveis, naturalmente. Regressões essas provocadas, maior parte das vezes, pelo "tocar na ferida", por um reaproximar de traumas passados que como que empatam e estagnam a evolução emocional. De certa forma, este processo pode ser útil, pois relembra-me de que há pó debaixo do tapete que de vez em quando levanta, pelo que o melhor é aspirá-lo.
Acredito que há um ponto de equilíbrio que se deve procurar, entre a intuição e a razão, para se avançar para as decisões que serão mais benéficas. Considero importante rever as repercussões possíveis dos comportamentos, principalmente relativas aos outros porque a nós próprios estamo-nos sempre a proteger instintivamente. Esse malabarismo é um treino constante que traz boa-venturança e também deceções. Com o reforço e confirmação do estímulo interno mais certeiro, vai-se tornando mais fácil encontrar essa harmonia. A uma certa altura quase que se pode antever, "ah é mesmo por aqui que eu queria vir", nem que posteriormente aconteça uma desilusão, quem sabe esta era necessária...
Face a esta conclusão pode-se contra-argumentar: que bela forma de nunca ter sentimentos de culpa e de desresponsabilizar o sujeito da própria ação, protegendo o ego com justificações logicamente coerentes. E eu respondo: que bela forma de aproveitar a vida sem ter o peso do mundo às costas. Não esquecer: é temporária e curta!
domingo, 22 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Adição - uma fórmula de múltiplos vetores
A recente visualização de uma reportagem sobre uma "nova" adição deixou-me a pensar... E a questionar. Adição à internet. Já se fala no termo há algum tempo, a nível mundial, mas apenas há pouco causa comichão a alguns aqui neste nosso cantinho. Até já há terapeutas especializados na causa. Pois eu acho muito bem, as necessidades surgem conforme as alterações dos padrões de vida e hábitos do cidadão comum.
O que me deixou a pensar foi o facto de que atualmente tudo se rotula e especifica, deixando-se de parte uma individualização dos problemas e uma busca da verdadeira origem do surgimento de algumas "micropatologias". Com este termo (micro), não pretendo reduzir a importância nem a gravidade das situações mas sim alertar para o facto de que existe, com certeza, um "macro" problema por detrás. É mais fácil para os pais (sem os querer com isto culpabilizar - os filhos não vêm com manual de instruções e cada pai também é um ser humano, repleto de "defeitos" congénitos e de origem ambiental) apontarem a internet (por exemplo) como a causadora dos maiores conflitos e dificuldades dos filhos. Assim como é mais fácil para todos culpar o governo em vez da própria natureza humana, dos atuais problemas sociais. Isto sem querer desresponsabilizar ninguém em particular até porque sou muito indecisa quanto à minha orientação política...
Voltando ao assunto, considero que o nosso foco é demasiado isolado e pouco abrangente, em quase tudo, desde a Psicologia à Medicina em geral (certos medicamentos que "tapam o sol com a peneira"... entre outros). Não se pode dissociar levianamente uma mancha na pele de um problema cutâneo maior, nem este de um mau funcionamento do organismo em geral, como uma fraca imunidade, por exemplo.
É urgente distinguir quais os verdadeiros problemas da nossa geração que se refugia em jogos de computador, internet e outros estímulos de fácil acesso. Porque estes não são mais do que fugas e reflexos de dificuldades mais complexas. Talvez os efeitos secundários destes abusos sejam mais perigosos do que quem lê compulsivamente ou de quem dança como se não houvesse amanhã, é verdade. Em todos os casos, não existe prazer que se equipare, em contraste com uma insatisfação constante que assola os mais frágeis e propensos a uma adição.
A tecnologia pode ser uma forte aliada, mesmo no âmbito da ecologia, o que por sua vez promove saúde ambiental. Não vamos cair no facilitismo de a acusarmos de todas as maleitas da atualidade... Escusado será dizer que defendo que esta deve ser utilizada dentro da medida do razoável e não como um substituto da mão de obra (e convivência) humana, logicamente.
Importante seria apostar numa política de prevenção. Integrar e cultivar atividades e hábitos saudáveis desde "tenrinhos", pode ajudar a uma escolha mais benéfica de mecanismos de coping. A internet é um alvo fácil para quem procura um escape e não vê muitas alternativas, pois provavelmente não foi habituado a vê-las. É realmente difícil competir com os mídia, sob o ponto de vista da intensidade com que nos influencia a todos, mas para quem conhece um verdadeiro prazer na vida, sem efeitos adversos, não há fator externo que consiga dominar. Aqui entra a importância da arte, dos desportos (preferencialmente sem competição), onde se podem englobar inúmeras atividades que promovem o bem-estar, a auto-estima, a interação com o outro, todas elas essenciais na construção de uma personalidade sana. O investimento no amor ao próximo (e não estou a falar de religião, mas talvez de espiritualidade, embora concorde que a primeira tenha muitos pontos a favor, nalguns casos, mas ia divagar), numa boa socialização e educação, o contacto com a natureza, animais, (blá blá blá, porque isto não é novidade) também são pontos fundamentais.
Obviamente, não controlamos todas as variáveis externas que nos possam influenciar, a nós e aos nossos, mas no que depender da nossa ação e opção, há muito para fazer e o incentivo aos hobbies é apenas uma sugestão (e cuidado que estes também se podem tornar viciantes!). Não me identifico com discursos moralistas e encaro este texto como uma chamada de atenção ou uma simples reflexão.
Não é tão trabalhoso assim, para que seja preferível apontar o dedo à internet ou a outra adição de fácil acesso. É claro que fácil é falar, ou escrever, mas se todos tomássemos como responsabilidade uma maior atenção ao que realmente importa, ao invés de andarmos distraídos, possivelmente se evitariam algumas situações problemáticas. E porque é raro ligar a TV e ligar-me à net sem um objetivo específico, posso-me, de certa forma, orgulhar de assim conseguir uma maior consciência crítica do que se me deixasse programar, não querendo com isto dizer que seja uma forma mais correta de viver mas talvez mais "livre" (e ignorante - às vezes ignoro temas atuais dos quais é importante estar ciente. Bem, vou lendo o jornal!).
Isolamento social, bullying, complexos, carência afetiva, dificuldades na gestão emocional, são alguns pontos de fragilidade que aumentam a probabilidade do encontro com uma dependência. A estes não é preciso fechar os olhos e devem ser tratados na sua causa e não apenas nos sintomas. Também se fala do gene do vício, casos mais complicados. Mais uma vez, a adição pode ser encarada como um sinal visível de algo mais profundo, às vezes oculto. Concordo com uma maior preocupação e uma maior abertura dos olhos aos verdadeiros problemas, pois parecemos estar a ganhar o vício de encontrar novas modas patológicas, e este não deve ser fácil de travar
E com isto já passei mais tempo à frente do computador do que era suposto, e desejável.
Sim, contradigo-me algumas vezes, mas não as suficientes para me conseguirem fazer um diagnóstico :))
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