sábado, 31 de dezembro de 2011

Um olhar pró retro

               
O ano tem 365 dias e 6 horas, segundo o calendário Gregoriano, que é aproximadamente o tempo que a Terra demora a dar uma volta em torno do Sol. O calendário chinês é lunissolar, ou seja, tem em conta o ciclo lunar para além do solar, sendo este mais complicado de explicar de momento e dadas as condições (preguiça). O emergente é a questão: o que temos realmente em conta ao fazermos um "balanço" anual? 

No tubo de ensaio de anteontem, o Bruno Nogueira fez-me soltar gargalhadas, mais uma vez, enquanto satirizava a comemoração da passagem do ano em Portugal quando noutros países já aconteceu há horas. Realmente, a passagem do ano difere segundo a perspectiva, e a latitude. 

A origem da nomenclatura dos meses também nos remete para um significado especial deste mês primeiro, Janeiro. Crê-se que a sua origem advém de Jano, deus romano das portas, passagens, inícios e fins. 

Apesar das diferentes visões relativamente a esta passagem, em todas elas existe um elemento em comum, a mudança. É verdade que esta ocorre em qualquer altura do ano, todos os dias, em cada minuto. Mas não será de todo despropositado encontrar um pretexto para parar e nos prepararmos para "um novo ciclo" e assim começar de um zero recheado de aprendizagens e reflexões.

Aqui crio espaço para reunir memórias significativas e rotulá-las. Guardo-as em gavetas de plástico, transparentes, para poder ver o seu conteúdo sempre que o queira. Hoje é um bom dia para uma retrospectiva.

Hoje tentei-me lembrar dos principais marcos deste ano que termina. A nostalgia tomou lugar subtilmente e amansou o espírito, como se, por instantes, o tempo parasse de contar.

Lembro-me do curso de espanhol, dos motivos que me levaram a impor um renascimento pessoal, de como a Primavera me trouxe de volta o sorriso, da euforia do Verão e da pressa dos dias quentes, mais numerosos do que o costume este ano mas já sentidos como distantes. 

Uma fantasia que fez o sol brilhar mais enquanto durou, sem necessidade de concretização. A feira do livro e a curiosidade provocada por um livro em especial, responsável por um desvio de rota inesperado. Percalços, partidas e desfechos. Um fósforo, relâmpagos, ao invés de uma vela... Como diz a canção: "a hora do encontro é também de despedida".

Festejar o vigésimo sétimo aniversário com uma alegria estimulada pelas atenções sobre mim, de pessoas queridas que fazem com que os dias contem um por um, receber prendas que tocam (não só o físico…). Surpreender-me com a metamorfose de um jogo despretensioso para uma espécie de amizade, tão cúmplice quanto distante… E estender-me-ia demasiado se continuasse a enumerar as recordações.

Recortes de vivências individuais, num mundo onde muito mais aconteceu. O que registei foi o que me surgiu como mais relevante na página 2011 do meu anuário de experiências, neste instante em que escrevo. Uma provocação: se tomássemos como certo que o mundo acabaria a 21 de Dezembro de 2012, o que mais valorizamos até aqui continuaria a ser o mesmo?

Acredito que maior parte do tempo, passamo-lo a pensar no passado, fazendo retrospectivas ou a especular sobre o futuro, criando expectativas como motor para nos levantarmos na manhã seguinte. Também é costume anexarmos preocupações a cada minuto. O presente passa-nos um pouco ao lado e quando nos recordamos de um momento, o mais provável é que nesse mesmo momento não estivéssemos lá por inteiro, mas sim a divagar entre o limbo do que passou e do que há-de vir. Ao relembrar, reconstrói-se a memória, com um novo significado que não existiu no tempo em que foi vivida. Recordar pode até ser uma tentativa de resgatar o que não sentimos ou não vimos no outrora “presente”…(?)

Utilizo como pretexto o final de mais um ciclo solar da terra para salientar uma premissa que valorizo, viver o agora. Um dos meus objetivos deste próximo ano é estar mais presente em cada acontecimento. Se o alcançar, certamente me tornarei mais madura e com capacidade para saborear melhor cada pedaço de tempo.

Um brinde: que cada ano que passe seja vivido com mais sabor!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Segredadamente

Latente. Num pulsar contra a corrente... Pendente sem relógio que conta o tempo do teu corpo ausente. Quente. A sensação que vem à mente. Fluente o discurso do pensamento recorrente. Breve mas eloquente, a imagem permanente.


domingo, 4 de dezembro de 2011

O prazer na escrita



É a dançar que surge...

O desejo de transbordar sentimentos... A líbido transforma-se. Sublima-se na forma de frases que esperam transmitir todas as sensações que pulsam no corpo e na mente. O deleite da escrita é raramente compreendido por quem não tem essa sede e mesmo difícil de explicar para quem sente essa motivação intrínseca. Uma necessidade, um hábito, hobby, nenhuma destas palavras me soa satisfatória para caracterizar a gratificação sentida ao colocar no "papel" a projeção dos labirintos emocionais, das cogitações vividas como verdades e especulações ficcionais. Para além deste prazer sentido durante e após a atividade da escrita, não se pode descurar a vontade que urge para essa ação, como se de uma necessidade básica se tratasse, ou, aliás, uma necessidade superior e prioritária naquele momento. É esta vontade que cria e ganha forma. 

O mais surpreendente acontece quando estas transcrições são apreciadas e fazem sentido não só aos próprios autores (ou amadores)! "Porquê?" Pensamos. Ao compreender o raciocínio de outrem, algo ecoa. Tomasse contacto com uma parte de nós à qual não estávamos atentos, ou dificilmente alguém a tinha exposto daquela maneira, agora tão lógica e repleta de significado. Não estamos sozinhos nesta procura do "autoconhecimento" e não somos assim tão diferentes entre nós. Somos feitos da mesma matéria... Tão complexamente simples!

domingo, 27 de novembro de 2011

Uma tarde assim, contigo


Tarde de sol imprevisto. Num impulso, decidimos ocupar parte do nosso dia semanal de descanso numa esplanada da foz, à beira-mar. Não tínhamos consultado a meteorologia mas estávamos seguras de que era o melhor local para passarmos uma tarde agradável e nem hesitamos. 
Tantas vezes frustradas na época balnear, nessa mesma esplanada, quando o vento nos apanhava desprevenidas. Nessa tarde, as condições eram perfeitas. Um sol baixo e acolhedor, nem brisa era necessária porque este não incomodava como já o fizera em meses anteriores. Sorrimos espontaneamente e inspiramos até encher o peito desse prazer que nos permitia aquele cenário. 

"Saudades do mar", exclamei. Foi em Outubro a última vez que o visitei mas pareciam dias mais longínquos na minha memória, talvez pelo calor fora de época que se fez sentir por essa altura. Enquanto respirávamos, a euforia que marcou o passado Verão, muitas vezes nesse mesmo local, deu lugar a uma atitude tranquila e reflexiva. Esta mudança, sem intenção, transformou o que olhávamos, e o que pensávamos. 

A partilha de opinião e ideais, é uma constante na nossa relação de amizade mas, nessa tarde, foi num olhar que nos sintonizamos a um sentimento mais profundo e a reflexão sobre temas complexos surgiu naturalmente. 

"Desde que o meu filho nasceu, nunca mais me senti incompleta", afirmou a certa altura. Precisei de pouco tempo para me recordar do entusiasmo com que ela vivia ilusões, da sofreguidão em consumir "o agora", em contraste com uma certa frieza com que lidava com os homens atualmente. Nunca foi com carinho que demonstrou a inquietude das suas paixões, mas com dedicação e romantismo, dois componentes que não têm estado presentes nos seus últimos "contactos". "Só agora sei o que é o amor e por isso sei que nunca amei antes", reforçou. Tornara-se mais exigente e menos propensa a  vivenciar fantasias como grandes histórias de amor. A maturidade tomou posse, mas mais do que isso, o amor esclareceu-a e vê agora com mais clareza. Eu, que trabalho na área (leia-se Psicologia das Relações Interpessoais), ouvia-a com toda a atenção, como se fosse a primeira vez que alguém me respondesse a tantas perguntas, sem sequer as colocar. 

Já foram centenas as pessoas que partilharam histórias sentidas naquele consultório "matrimonial", já aprendi muito e ouço sempre com a vontade de aprender mais e as compreender por inteiro. Naqueles instantes, a verdade das palavras da minha amiga, superara qualquer desabafo anterior que tenha escutado. Tentava explicar-me que sabendo agora o que é o verdadeiro amor, não se contentava com algo medíocre. "Amor tem que ser para toda a vida, tem de ser inabalável." Por pouco não intervi para me precipitar a acusá-la de ingenuidade. Depois de tantas histórias lidas e contadas, por pacientes, clínicos, atores de teatro, aquela frase caía por terra quando confrontada com "a realidade". Mas não me atrevi a contrapôr. A pureza com que o disse, tornou-a incontestável. Questionei-me, será que um dia lhe darei razão? Faço uma vistoria das imagens armazenadas que tenho do amor entre os meus pais, do então até agora, e não posso desmentir. Pode ser um caso em mil (sendo otimista), mas prova que é possível. Estando eles tão perto, devia tomá-los mais vezes como exemplo. Tão perto e tão real, é o amor deles. 

Entretanto, divagamos sobre a distinção entre a paixão, atração e o verdadeiro sentimento de plenitude. Continuamos numa conversa animada mas o momento que marcou aquela tarde já tinha acontecido. A compreensão do outro para além das palavras e a minha leitura para além do racional. Foi-me impossível contrariar uma teoria com a qual não concordo, talvez porque espero vir a concordar, numa esperança de certo ingénua.

Naquela luz de Outono, o mar repousava sobre a praia e o olhar condizia com o que havia descoberto. Os argumentos eram, por vezes, supérfluos. 

Esfriou, mas os corações estavam quentes. Assim, ainda conseguimos acabar de comer os scones.

Chegadas ao carro, tinha uma multa. "Mais uma!" pensei, mas não me abalou, sentia-me mais "rica". 
E pelo caminho cantávamos "just look into your heart my friend, it will be the return to yourself, the return to innocence"!

sábado, 26 de novembro de 2011

A Arte e a ilusão da sua exogeneidade


O nosso fascínio pela arte é incontestável. Na verdade, estamo-nos a apreciar a nós próprios, de outro ponto de vista. A “obra de arte” é o mais real dos espelhos da subjetividade humana, do nosso conteúdo e alma visceral. Fazemos arte com tudo aquilo de que somos feitos. Entregamo-nos de corpo e espírito no seu ato de concepção e o resultado é uma realização espontânea. Quando seguros de que o que fizemos é “transmissível” e será apreciado, dá-nos ganas de expôr o nosso trabalho ao mundo!

Existe na arte um entendimento superior ao das palavras sem par, podendo no entanto integrá-las (sendo-nos tão queridas). Numa pintura, um texto pode completá-la, no fado, o seu par é a alma. 
Sermos compreendidos ao contemplá-la, é a melhor sensação da experiência. Uma descoberta silenciosa que nos gera sentido. Olhar e perceber, sentir, apesar de não conseguirmos explicar na grande maioria das vezes. A cognição está ativa, à procura da amiga lógica e com a ajuda das nossas ferramentas de apreensão dos estímulos, os sentidos. Mas a idiossincrasia de cada um que observa, lê de forma pessoal e individualizada todos os seus componentes tangíveis e potenciais. Mexe connosco.

Nesta relação, o artista apresenta-se a nu, eventualmente sem os preconceitos de uma apresentação de caráter "social". Assim, rotulo este contacto como genuíno e até ingénuo. De certa forma, o artista expõe os seus medos e livra-se deles simultaneamente. É arriscado e conciliador. (Quase) o mesmo, acontece ao espectador.

É com ambiguidade que revelo uma breve interpretação da arte e com a certeza de que esta é uma das suas características inerentes. Tão inevitável como a sua pertença à condição humana. Compreenda-se.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Revelações

"Hoje no elevador descobri o seu nome.
No cartão pessoal, que retirou com cuidado para não soltar os fios da camisola de lã, estava escrito à màquina Lianor.

Leonor no espelho do elevador vê pelo canto do olho se está arranjada.
Ela sabe que por detrás da orelha já não tem uma flor selvagem, e por isso tem espaço para arrumar o seu cabelo com a mão, como se o escondesse.
Repara nos seus dedos riscados pela esferográfica que deixou arrumada sobre a secretária.
Está bonita na sua insegurança.

Leonor é agora tão verdadeira nessa impureza frágil como a água canalizada, que escondida na parede do prédio só é relembrada quando falta na torneira.

Leonor em vez de se colocar a meio do elevador vazio prefere pôr-se, aconchegada a um canto, tal como faz à noite antes de adormecer, de modo a não sentir o resto da cama fria."

João Miguel Queirós
(n.1969)
poetas sem qualidades
Averno


(Elegido por um amigo que me conhece a alma)

domingo, 13 de novembro de 2011

Divago sobre a hipotética incerteza da existência



Presumo que existes porque a minha memória inclui-te. Existes entre sinapses que os sentidos criaram, envoltos de emoções e assim relembro-te e reinvento-te. Existes tanto quando estás presente como quando distante. O que nos prova a verdade do que captamos com os nossos sentidos?
Numa mente esquizofrénica, é tão real uma alucinação como o nosso encontro.

A saudade surge da falta de novos estímulos de um determinado "objeto" que nos costuma provocar boas sensações, ou assim ansiamos. Sentimos saudades porque um vazio se instalou no lugar de emoções fortes que nos acordam para o sentido da vida.

Qual a diferença entre a morte e a distância no que remete ao sentimento de perda? Uma questão de perspetiva e expectativas. A distância não mata a esperança, mesmo que inconsciente, da possibilidade de rever o "objeto". Não decapita o desejo. A morte altera definitivamente o futuro, acaba com qualquer expectativa e com uma hipotética satisfação da necessidade do outro que pudesse reaparecer.

O maior sofrimento advém assim, da impossibilidade de concretização. Estejamos a falar de amor ou qualquer desejo que nos importe tanto como a vida... É o saber que essa impossibilidade é incontornável, é uma certeza. O que não sabemos é precisamente o que nos faz sonhar e criar.

Sendo assim, também a certeza da concretização pode apagar o desejo... Porque não precisamos de combustível para a alcançar. A esse combustível chamo de motivação. É então a incerteza que nos motiva, que nos obriga à ação..!

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Caminando por la calle




Barcelona. Entrar no metro e sair sem planos, sem um itinerário definido. Passeig de Gràcia. Salir e caminhar para onde o odor me leva. Andar até as sandálias romperem (facto verídico, não metafórico), é Domingo e só os cafés estão abertos mas não me apetece sentar. Ando sem saber parar. Dou por mim a perceber que era mais prudente ter ido no outro sentido, as ruas parecem-me estranhamente iguais. Volver. Direção contrária, passo pelas mesmas esquinas mas o cenário parece diferente, una segunda mirada. O meu fôlego alimenta-se da novidade de cada passo, Barcelona é uma cidade onde se respira. O meu olhar expande-se ao tentar absorver todos os estímulos - missão impossível. Pessoas, cores, sensações, tudo me encanta. Mesmo o que me desagrada. Tentar distinguir os turistas, carteiristas e imigrantes, entre os nativos, tornou-se um exercício engraçado. Como me defino entre eles? Um pouco de cada um. A semelhança com os carteiristas está na atenção ao detalhe e na perspicácia do olhar.

Sento-me no metro, só porque tinha jantar às 20h. Sem horas, perder-me-ia até me encontrar ali. Identifico-me. Integro-me. Sinto-me bem ali.

Por la noche parti novamente à descoberta, mas desta vez acompanhada. A viagem foi igualmente enriquecedora mas a aventura não foi tão emocionante. Solitária sinto-me mais acompanhada pelo mundo, dona de uma visão mais una.

Na concha do (também) meu mundo. My perception, our world.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Monopólio da Fantasia


Como deter uma fantasia cujas asas brotaram de um sopro e agora batem ao ritmo do vento, imprevisíveis e indomáveis..?
Tentei arrancar pena por pena mas, para além da dor gerada por tal procedimento, cresciam duas por cada retirada. Não era uma boa estratégia.
Através da lógica também não tirei conclusões satisfatórias. Procurei um foco diferente, cravei os pés na terra de forma a concentrar-me no mundo tangível, real mas limitado. Procurei respostas em todos os tratados de Psicologia, queria saber, perceber, parar. Só as palavras de Blaise Pascal me fizeram sentido: "O coração tem razões que a própria razão desconhece."
De repente, o som do bater das asas tornou-se tão ruidoso que me acordou para uma quimera onde me sinto bem, confortável, compreendida e realizada, num cenário onde só me posso resignar à minha condição humana, carnal e sofredora.
Estou aqui, sinto-me viva, o sangue quente corre pelas veias e as asas permitem-me voar até onde o sonho me levar.

Leonor Moreira

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Cruzamentos

O que é preciso acontecer para que duas pessoas se cruzem no mesmo caminho? São demasiados passos para não serem tidos em conta e para não se valorizar o seu resultado. Por isso sinto-me grata por te ter conhecido.
Enriqueci depois de te olhar, te sentir perto e de te compreender. Amadureci com a tua visão do mundo quando consegui ver pelos teus olhos, quando me despi por momentos do meu ego e te abracei de peito aberto. As tuas palavras ecoaram e compreendi melhor o sentido de tudo. Quando consigo ser humilde, aprendo muito e cresço contigo.
Ao enxugar as tuas lágrimas, rir com as tuas gargalhadas, ao partilhar o teu silêncio, celebramos a vida e curamos mágoas e sentimo-nos livres!
Tu que cruzaste o meu caminho, nem que por apenas um breve suspiro. Tu que paraste e ficaste. Tu que acrescentaste sentido à minha existência.
Vocês que continuam os vossos caminhos e assim tudo segue a sua ordem, o seu “destino”, em simbiose…


domingo, 28 de agosto de 2011

Ser Humano, um privilégio

 
Somos os seres vivos que mais interagem com o seu meio, com o seu próprio habitat, ultrapassando mesmo os seus limites. Temos assim nas nossas mãos um poder de aprendizagem e observação que mais nenhum ser do planeta possui. Somos privilegiados. Temos o privilégio de termos sido abençoados (passo o termo) com uma inteligência criadora, semelhante ao próprio poder da Natureza. Existe em nós uma capacidade suprema de recriar, reciclar, reinventar, que com certeza seria alvo de inveja se os outros seres vivos tivessem consciência dela.

Concordando, só poderíamos esperar uma contribuição e evolução benéficas para o mundo, vindas deste ser tão magnífico. O que vemos está muito longe do que se poderia esperar de um animal com tantas competências. Contra mim falo.

São muito poucas, ainda, as vezes em que me permito uma pausa para refletir sobre o meu estilo de vida e atitude perante o que me cerca. Uma fauna e flora vastas, com um encanto sublime cujo valor descuramos, como o fazemos com tudo o que nos parece fácil de obter. Dando um exemplo prático, no outro dia o patrão da empresa onde exerço funções, questionou-me: "Você sabe o que é mais valioso no mundo?" Ao qual respondi com outra pergunta, naturalmente: " Valor financeiro?" Respondeu afirmativamente. "Hmmm... Ouro, diamantes, platina..? Exatamente, respondeu. No entanto, não precisamos deles para respirar nem para sobreviver" Este pequeno diálogo tinha o intuito de me alertar para o valor comercial dos serviços que prestamos mas fez-me pensar numa questão mais importante e, Eureka! Agora entendo o que as pessoas com mais idade querem dizer com "Os valores perderam-se", ou, pelo menos, já tenho a minha interpretação. Não me refiro a valores ético/morais/religiosos, aí haveria pano para mangas e iria-me desviar do tema. Falo do real valor que damos às "coisas" e o pouco que damos à vida! Vêmo-la como garantida e porque a nossa passagem é curta, à que ser egocêntrico. Talvez a nossa passagem não seja tão curta e se prestarmos atenção à sabedoria indiana, o que não nos parece nosso ou parte de nós, se calhar é o nosso verdadeiro "Eu".

Quando estou atenta e cuido do planeta que me acolhe (dentro dos possíveis de forma a continuar integrada na sociedade), sinto-me mais consciente e com o coração cheio. Por isso, nem que seja por egoísmo, para nos sentirmos melhor connosco próprios, deveríamos abrir mais os olhos para a magia que nos envolve, ao invés de nos deixarmos ludibriar por uma utopia urbana que nos promete tornar "melhores", "mais capazes" e, simplesmente, mais consumistas e dependentes. Escrevo como um ato de lembrança para mim própria e para quem me quiser "ouvir".
Heal the world! :)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Nascimento do suspiro

Suspiro vem do latim suspirare (ofegar, bufar, exalar o ar com força). É também um doce. Ou seja, é algo que sabe bem.

Crio hoje este blog, com a vontade de quem expira e liberta tensões para logo depois poder inspirar com mais força, de forma revigorante, recarregando energias. Esvaziar para limpar e conseguir reescrever, em solo fértil, palavras com um novo significado que ecoará nas páginas do quotidiano.

A escrita funciona para mim como uma terapêutica de sucesso desde que consigo construir frases com algum sentido e significado existencial/filosófico, desde a puberdade. Mas não escrevo por isso, é algo tão natural e prazeroso como um suspiro. Escrevo porque sinto, porque assim me compreendo e me organizo.

Escolhi o dia de hoje para partilhar o que sinto porque suspirei mais do que o costume e escrevi assim no caderno onde habitualmente desabafo:

"Melancolia. Quando toma conta de nós, envolve-nos num terno abraço, acarinhando-nos com doçura. É aquela manta quentinha que nos aconchega quando está frio lá fora e que bem que sabe chorar sozinha e poder ter um momento para o fazer..! Um momento à parte. Quando a constância é a euforia, é bom e enriquecedor mudar um pouco de perspetiva, nem que por apenas um breve momento. Os nossos olhos húmidos e coração sensível observam de outra forma e cor o mundo, que é o mesmo de ontem, mas hoje parece diferente. Essa outra visão como que nos desperta para outros interesses, preocupações e valores de que podemos estar esquecidos. A tristeza pontual é uma experiência que nos equilibra, necessária à harmonia. A patologia ocorre quando transformamos a confortável manta num escudo protetor e nos fechamos ao mundo. Evito fazê-lo e não é natural em mim. Aliás, today i'm blue but i feel glad for that! "

É com alegria que partilho a minha tristeza. Posso culpar o tempo, as hormonas, o stress laboral, a fase da lua mas não é a atribuição de culpas que me interessa mas o que posso fazer eu com este sentimento? Posso por exemplo, escrever. É ser produtiva mesmo que só crie monotonia a quem leia este texto tão desconexo como o que sinto hoje!

Fico por aqui, com a vontade de acrescentar mais disparates mas com a prudência de quem sabe travar, às vezes, antes da curva.

Peço a vossa compreensão para a minha inexperiência como blogger. Estou habituada a escrever para os meus botões e a suspirar em silêncio, com toda a liberdade a que me permito.

Até mais!