Tarde de sol imprevisto. Num impulso, decidimos ocupar parte do nosso dia semanal de descanso numa esplanada da foz, à beira-mar. Não tínhamos consultado a meteorologia mas estávamos seguras de que era o melhor local para passarmos uma tarde agradável e nem hesitamos.
Tantas vezes frustradas na época balnear, nessa mesma esplanada, quando o vento nos apanhava desprevenidas. Nessa tarde, as condições eram perfeitas. Um sol baixo e acolhedor, nem brisa era necessária porque este não incomodava como já o fizera em meses anteriores. Sorrimos espontaneamente e inspiramos até encher o peito desse prazer que nos permitia aquele cenário.
"Saudades do mar", exclamei. Foi em Outubro a última vez que o visitei mas pareciam dias mais longínquos na minha memória, talvez pelo calor fora de época que se fez sentir por essa altura. Enquanto respirávamos, a euforia que marcou o passado Verão, muitas vezes nesse mesmo local, deu lugar a uma atitude tranquila e reflexiva. Esta mudança, sem intenção, transformou o que olhávamos, e o que pensávamos.
A partilha de opinião e ideais, é uma constante na nossa relação de amizade mas, nessa tarde, foi num olhar que nos sintonizamos a um sentimento mais profundo e a reflexão sobre temas complexos surgiu naturalmente.
"Desde que o meu filho nasceu, nunca mais me senti incompleta", afirmou a certa altura. Precisei de pouco tempo para me recordar do entusiasmo com que ela vivia ilusões, da sofreguidão em consumir "o agora", em contraste com uma certa frieza com que lidava com os homens atualmente. Nunca foi com carinho que demonstrou a inquietude das suas paixões, mas com dedicação e romantismo, dois componentes que não têm estado presentes nos seus últimos "contactos". "Só agora sei o que é o amor e por isso sei que nunca amei antes", reforçou. Tornara-se mais exigente e menos propensa a vivenciar fantasias como grandes histórias de amor. A maturidade tomou posse, mas mais do que isso, o amor esclareceu-a e vê agora com mais clareza. Eu, que trabalho na área (leia-se Psicologia das Relações Interpessoais), ouvia-a com toda a atenção, como se fosse a primeira vez que alguém me respondesse a tantas perguntas, sem sequer as colocar.
Já foram centenas as pessoas que partilharam histórias sentidas naquele consultório "matrimonial", já aprendi muito e ouço sempre com a vontade de aprender mais e as compreender por inteiro. Naqueles instantes, a verdade das palavras da minha amiga, superara qualquer desabafo anterior que tenha escutado. Tentava explicar-me que sabendo agora o que é o verdadeiro amor, não se contentava com algo medíocre. "Amor tem que ser para toda a vida, tem de ser inabalável." Por pouco não intervi para me precipitar a acusá-la de ingenuidade. Depois de tantas histórias lidas e contadas, por pacientes, clínicos, atores de teatro, aquela frase caía por terra quando confrontada com "a realidade". Mas não me atrevi a contrapôr. A pureza com que o disse, tornou-a incontestável. Questionei-me, será que um dia lhe darei razão? Faço uma vistoria das imagens armazenadas que tenho do amor entre os meus pais, do então até agora, e não posso desmentir. Pode ser um caso em mil (sendo otimista), mas prova que é possível. Estando eles tão perto, devia tomá-los mais vezes como exemplo. Tão perto e tão real, é o amor deles.
Entretanto, divagamos sobre a distinção entre a paixão, atração e o verdadeiro sentimento de plenitude. Continuamos numa conversa animada mas o momento que marcou aquela tarde já tinha acontecido. A compreensão do outro para além das palavras e a minha leitura para além do racional. Foi-me impossível contrariar uma teoria com a qual não concordo, talvez porque espero vir a concordar, numa esperança de certo ingénua.
Naquela luz de Outono, o mar repousava sobre a praia e o olhar condizia com o que havia descoberto. Os argumentos eram, por vezes, supérfluos.
Esfriou, mas os corações estavam quentes. Assim, ainda conseguimos acabar de comer os scones.
Chegadas ao carro, tinha uma multa. "Mais uma!" pensei, mas não me abalou, sentia-me mais "rica".
E pelo caminho cantávamos "just look into your heart my friend, it will be the return to yourself, the return to innocence"!
