domingo, 27 de novembro de 2011

Uma tarde assim, contigo


Tarde de sol imprevisto. Num impulso, decidimos ocupar parte do nosso dia semanal de descanso numa esplanada da foz, à beira-mar. Não tínhamos consultado a meteorologia mas estávamos seguras de que era o melhor local para passarmos uma tarde agradável e nem hesitamos. 
Tantas vezes frustradas na época balnear, nessa mesma esplanada, quando o vento nos apanhava desprevenidas. Nessa tarde, as condições eram perfeitas. Um sol baixo e acolhedor, nem brisa era necessária porque este não incomodava como já o fizera em meses anteriores. Sorrimos espontaneamente e inspiramos até encher o peito desse prazer que nos permitia aquele cenário. 

"Saudades do mar", exclamei. Foi em Outubro a última vez que o visitei mas pareciam dias mais longínquos na minha memória, talvez pelo calor fora de época que se fez sentir por essa altura. Enquanto respirávamos, a euforia que marcou o passado Verão, muitas vezes nesse mesmo local, deu lugar a uma atitude tranquila e reflexiva. Esta mudança, sem intenção, transformou o que olhávamos, e o que pensávamos. 

A partilha de opinião e ideais, é uma constante na nossa relação de amizade mas, nessa tarde, foi num olhar que nos sintonizamos a um sentimento mais profundo e a reflexão sobre temas complexos surgiu naturalmente. 

"Desde que o meu filho nasceu, nunca mais me senti incompleta", afirmou a certa altura. Precisei de pouco tempo para me recordar do entusiasmo com que ela vivia ilusões, da sofreguidão em consumir "o agora", em contraste com uma certa frieza com que lidava com os homens atualmente. Nunca foi com carinho que demonstrou a inquietude das suas paixões, mas com dedicação e romantismo, dois componentes que não têm estado presentes nos seus últimos "contactos". "Só agora sei o que é o amor e por isso sei que nunca amei antes", reforçou. Tornara-se mais exigente e menos propensa a  vivenciar fantasias como grandes histórias de amor. A maturidade tomou posse, mas mais do que isso, o amor esclareceu-a e vê agora com mais clareza. Eu, que trabalho na área (leia-se Psicologia das Relações Interpessoais), ouvia-a com toda a atenção, como se fosse a primeira vez que alguém me respondesse a tantas perguntas, sem sequer as colocar. 

Já foram centenas as pessoas que partilharam histórias sentidas naquele consultório "matrimonial", já aprendi muito e ouço sempre com a vontade de aprender mais e as compreender por inteiro. Naqueles instantes, a verdade das palavras da minha amiga, superara qualquer desabafo anterior que tenha escutado. Tentava explicar-me que sabendo agora o que é o verdadeiro amor, não se contentava com algo medíocre. "Amor tem que ser para toda a vida, tem de ser inabalável." Por pouco não intervi para me precipitar a acusá-la de ingenuidade. Depois de tantas histórias lidas e contadas, por pacientes, clínicos, atores de teatro, aquela frase caía por terra quando confrontada com "a realidade". Mas não me atrevi a contrapôr. A pureza com que o disse, tornou-a incontestável. Questionei-me, será que um dia lhe darei razão? Faço uma vistoria das imagens armazenadas que tenho do amor entre os meus pais, do então até agora, e não posso desmentir. Pode ser um caso em mil (sendo otimista), mas prova que é possível. Estando eles tão perto, devia tomá-los mais vezes como exemplo. Tão perto e tão real, é o amor deles. 

Entretanto, divagamos sobre a distinção entre a paixão, atração e o verdadeiro sentimento de plenitude. Continuamos numa conversa animada mas o momento que marcou aquela tarde já tinha acontecido. A compreensão do outro para além das palavras e a minha leitura para além do racional. Foi-me impossível contrariar uma teoria com a qual não concordo, talvez porque espero vir a concordar, numa esperança de certo ingénua.

Naquela luz de Outono, o mar repousava sobre a praia e o olhar condizia com o que havia descoberto. Os argumentos eram, por vezes, supérfluos. 

Esfriou, mas os corações estavam quentes. Assim, ainda conseguimos acabar de comer os scones.

Chegadas ao carro, tinha uma multa. "Mais uma!" pensei, mas não me abalou, sentia-me mais "rica". 
E pelo caminho cantávamos "just look into your heart my friend, it will be the return to yourself, the return to innocence"!

sábado, 26 de novembro de 2011

A Arte e a ilusão da sua exogeneidade


O nosso fascínio pela arte é incontestável. Na verdade, estamo-nos a apreciar a nós próprios, de outro ponto de vista. A “obra de arte” é o mais real dos espelhos da subjetividade humana, do nosso conteúdo e alma visceral. Fazemos arte com tudo aquilo de que somos feitos. Entregamo-nos de corpo e espírito no seu ato de concepção e o resultado é uma realização espontânea. Quando seguros de que o que fizemos é “transmissível” e será apreciado, dá-nos ganas de expôr o nosso trabalho ao mundo!

Existe na arte um entendimento superior ao das palavras sem par, podendo no entanto integrá-las (sendo-nos tão queridas). Numa pintura, um texto pode completá-la, no fado, o seu par é a alma. 
Sermos compreendidos ao contemplá-la, é a melhor sensação da experiência. Uma descoberta silenciosa que nos gera sentido. Olhar e perceber, sentir, apesar de não conseguirmos explicar na grande maioria das vezes. A cognição está ativa, à procura da amiga lógica e com a ajuda das nossas ferramentas de apreensão dos estímulos, os sentidos. Mas a idiossincrasia de cada um que observa, lê de forma pessoal e individualizada todos os seus componentes tangíveis e potenciais. Mexe connosco.

Nesta relação, o artista apresenta-se a nu, eventualmente sem os preconceitos de uma apresentação de caráter "social". Assim, rotulo este contacto como genuíno e até ingénuo. De certa forma, o artista expõe os seus medos e livra-se deles simultaneamente. É arriscado e conciliador. (Quase) o mesmo, acontece ao espectador.

É com ambiguidade que revelo uma breve interpretação da arte e com a certeza de que esta é uma das suas características inerentes. Tão inevitável como a sua pertença à condição humana. Compreenda-se.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Revelações

"Hoje no elevador descobri o seu nome.
No cartão pessoal, que retirou com cuidado para não soltar os fios da camisola de lã, estava escrito à màquina Lianor.

Leonor no espelho do elevador vê pelo canto do olho se está arranjada.
Ela sabe que por detrás da orelha já não tem uma flor selvagem, e por isso tem espaço para arrumar o seu cabelo com a mão, como se o escondesse.
Repara nos seus dedos riscados pela esferográfica que deixou arrumada sobre a secretária.
Está bonita na sua insegurança.

Leonor é agora tão verdadeira nessa impureza frágil como a água canalizada, que escondida na parede do prédio só é relembrada quando falta na torneira.

Leonor em vez de se colocar a meio do elevador vazio prefere pôr-se, aconchegada a um canto, tal como faz à noite antes de adormecer, de modo a não sentir o resto da cama fria."

João Miguel Queirós
(n.1969)
poetas sem qualidades
Averno


(Elegido por um amigo que me conhece a alma)

domingo, 13 de novembro de 2011

Divago sobre a hipotética incerteza da existência



Presumo que existes porque a minha memória inclui-te. Existes entre sinapses que os sentidos criaram, envoltos de emoções e assim relembro-te e reinvento-te. Existes tanto quando estás presente como quando distante. O que nos prova a verdade do que captamos com os nossos sentidos?
Numa mente esquizofrénica, é tão real uma alucinação como o nosso encontro.

A saudade surge da falta de novos estímulos de um determinado "objeto" que nos costuma provocar boas sensações, ou assim ansiamos. Sentimos saudades porque um vazio se instalou no lugar de emoções fortes que nos acordam para o sentido da vida.

Qual a diferença entre a morte e a distância no que remete ao sentimento de perda? Uma questão de perspetiva e expectativas. A distância não mata a esperança, mesmo que inconsciente, da possibilidade de rever o "objeto". Não decapita o desejo. A morte altera definitivamente o futuro, acaba com qualquer expectativa e com uma hipotética satisfação da necessidade do outro que pudesse reaparecer.

O maior sofrimento advém assim, da impossibilidade de concretização. Estejamos a falar de amor ou qualquer desejo que nos importe tanto como a vida... É o saber que essa impossibilidade é incontornável, é uma certeza. O que não sabemos é precisamente o que nos faz sonhar e criar.

Sendo assim, também a certeza da concretização pode apagar o desejo... Porque não precisamos de combustível para a alcançar. A esse combustível chamo de motivação. É então a incerteza que nos motiva, que nos obriga à ação..!