Sexta-feira de madrugada, o
despertador já não tocava tão cedo há uns tempos. Estranhei mas levantei-me num
ápice, yes sir! Ele é que manda e se
duvido (por pouco que seja) da sua autoridade, não faço caso aos compromissos.
(E é do melhor sono que há, o sono proibido…). A verdade é que não hesito no
momento de despertar e deixo as ponderações para depois. Começo a organizar-me
e a perceber se tenho realmente um motivo válido para tal esforço. Ah sim,
verdad! Motivo-me, imagino-me a passear no meu “novo mundo encantado”, a
reencontrar caras que já me são familiares e agradáveis e a ouvir a tão
caricata pronúncia catalã, com a qual também já estabeleci empatia. Ok, é por
uma boa causa, vamos a isto!
5h30. Não encontro a porta de
embarque, que a esta hora já é costume estar assinalada. Vou verificar o painel
e, estranho, BCN é na porta 15 mas lá diz Madrid?? É o tal problema de nem
sempre estar conectada com o que se passa em volta… A greve dos controladores
de tráfego aéreo já tinha começado no dia anterior e continuava neste mesmo dia,
até às 10h! Ora se o meu vôo era às 6h40… bad luck. Bem, vou aproveitar para
dormir mais um bocado.
Acordo com um empurrão de rabo nos meus pés e levanto-me
sobressaltada. O encontrão foi dado por uma senhora que aparentava ter
parentesco com a família real inglesa e (talvez por isso) não se incomodou em
pedir desculpa, nem sequer a dirigir-me um olhar. Para ela eu era como um sem
abrigo que se tinha aproveitado da confusão do aeroporto para passar
despercebido. Imaginei que para estes não seja fácil lidar com a indiferença
constante de que são alvo.
Decidi passear pelas lojas duty
free e livrarias (se se podem chamar assim). Já não estava impaciente porque
consegui a oportunidade de ler sem horas curtas e cheirar perfumes indiscriminadamente.
Hmmmm… Depois de encostar o nariz a uma dezena de frascos de odores triviais,
eis que surge um divino! Precipitei-me a perfumar-me discretamente. Suave mas
quente, envolvente... não era frutado, tinha parte floral (lavanda) mas
com certeza também óleos de madeira (talvez sândalo).
Mais uns passos à frente, Internet free, onde aproveitei
para mandar alguns "bitaites" no FB e perceber melhor as razões que motivavam os
controladores de tráfego aéreo a serem tão cruéis! Cheguei à conclusão que têm
motivos válidos por isso o meu grau de aceitação do que se estava a passar foi
maior a partir dali.
Música num dos ouvidos, bora pra
porta de embarque, já são as 11h30 e tinham previsto embarque às 11h40. Optei
por Abege, achei que zouk poderia ajudar-me a manter a paciência.
Em apenas dois idiomas (português
e inglês), avisaram que o vôo para uma cidade francesa (cujo nome não me recordo de momento), realizaria o seu embarque noutra porta. Até ali estava apontado para a mesma que
Barcelona, porta 15. Entretanto, apercebi-me
que a senhora à minha frente era francesa e estava atarefada com o filho
aquando o aviso.
- Excuse me, do you speak in English?
- Yes, a little. – respondeu de
sorriso atento.
Informei-a do sucedido mas a
senhora, dos seus 40 anos, de brilho jovem e mente esperta, ia para o mesmo
destino que moi.
Demonstrou-se muito agradecida de
qualquer forma, reconheceu a boa intenção, e aproveitou para “esticar as
pernas” da comunicação e puxar conversa comigo. Ao contrário do que é costume nestes
contextos, em que às vezes surge o constrangimento da necessidade de desenvolver
uma conversa fluída e interessante (e nem sempre é essa a vontade), a
naturalidade do diálogo foi imediata e estávamos atentas e curiosas ao
que cada uma contava. Concluímos que o espanhol era o idioma em que nos
entendíamos melhor e a simpatia entre palavras foi realmente genuína.
Entendia-lhe no olhar que sintonizava com o meu raciocínio (coisa que nem
sempre é fácil) e nunca o meu espanhol fora tão
experto. Há nesse entendimento mútuo um conforto impossível de descrever com
precisão.
É-me muitas vezes difícil identificar-me com outrem, apesar da
empatia se gerar com alguma frequência. Chego a pensar que é uma fantasia
inconcretizável encontrar amigos com quem realmente me identifique, por mais
afeto que sinta pelos atuais. Simpatia, compaixão, interesse, atração,
acontecem aqui e ali, sente-se e deixa-se de se sentir num piscar de olhos.
Vontade de partilhar, de me dar a conhecer, de manter o olhar e de me despir de
tiques sociais por os considerar desnecessários, posso contar pelos dedos de
uma mão as vezes que aconteceu rápida e espontaneamente.
O que tínhamos em comum, Milène,
uma francesa que veio visitar a irmã que vive em Aveiro, acompanhada de seu
filho Yannis de pele morena e bochechas rasgadas pelo riso e uma portuguesa que
aspirava decifrar a psique humana através das mais variadas invenções? A
resposta não foi desvendada mas com certeza que existe muito. Completar frases,
exclamar indignações e ter o seu retorno instantâneo, gargalhadas que não se
contêm e olhares que não incomodam, dão algumas pistas do quanto nos
identificamos prontamente. Havia ainda uma maturidade na sua conduta (que não
se encontra em todas as pessoas com 40 anos, não) que em vez de me intimidar me
fez admirá-la mais.
Ajudei-a a disfarçar a mala
oversized, apesar de não me ter pedido; fui cúmplice quando acendeu um cigarro na
zona exterior (onde não é permitido) enquanto esperávamos que a fila andasse –
não era deste tipo de maturidade/responsabilidade que falava há pouco. Preocupou-se
em certificar-se que me sentava a seu lado no avião.
Já no boeing 737-800 aircraft, estava moída,
precisava de descanso e até nisso nos compreendemos, ela de certo também sentia
o mesmo e a conversa sofreu uma pausa. Não conseguia dormir por isso pedi
emprestado um jornal que um conterrâneo lia. Virando páginas, fui comentando
quando reparava que surgia alguma curiosidade do meu lado direito, onde estava
sentada a minha mais recente “amiga”.
Entretanto referiu que depois
daquela viagem ainda iria de carro até Montpellier, onde vive. Manteve la
mirada un rato e acrescentou que seria muito bem-vinda em sua casa, onde
costumava acolher estrangeiros, maior parte das vezes oriundos de países
nórdicos. Trocamos emails e prometi-lhe que também lhe mostrava o “meu” Porto
um dia em que tivesse oportunidade de voltar, uma vez que esteve em Aveiro
grande parte do tempo e deu apenas um salto a Lisboa, ficando a vontade de regressar a
Portugal para conhecer a Invicta para além do seu aeroporto.
Por baixo do
email, a assinatura. Já não consigo evitar o olhar indiscreto a cada vez que
alguém se expõe de tal forma, tão natural e inconsciente. O apelido saltava
à vista, em maiúsculas. Os meus professores (da pós-graduação de Grafoanálise
que frequento) alertaram para não fazermos juízos através de uma assinatura
isolada, sem texto, porque a sua análise depende dessa comparação, mas
arrisquei: “Muito orgulho pela família da qual descende!”, comentei. Surpreendida e
impressionada, respondeu-me: “Muito!!” Provavelmente não seria só esse o motivo de
escrever o apelido em maiúsculas mas foi o suficiente para estreitar (ainda mais) a confiança.
Despedimo-nos no comboio, sairia
uma paragem depois de mim. Já após a despedida oficial, procuramo-nos mais uma
vez, esticando o pescoço, para acenar com vigor um sincero até já.
Chegada à faculdade, atrasada
porque ainda fui enganar a fome, tarde e a más horas devido a tamanho atraso do
vôo, a minha colega mais próxima lançou a observação: “Oye! Te veo más alegre hoy!” Ainda gracejou que pensava dever-se a alguma interação mais
íntima que pudesse ter tido. Pareceu confusa com a minha resposta: “Tive um dia complicado hoje… e
ainda bem!”
Há encontros que provocam
um bem-estar de efeito prolongado, tão ou mais gratificante que qualquer outro tipo de satisfação humana.
E as complicações, por vezes, levam-nos por caminhos mais interessantes do que o previsto!