segunda-feira, 30 de abril de 2012

O tempo não passa, existe - o passado reinventa-se


Os odores que o vento traz… Memórias e fantasias ao inspirar. Cada passo deixa uma pegada e os trilhos desenhados, são marcas do futuro. O esqueleto cresce sozinho de um projeto cuja arquitetura se desconhece, mas não se desdenha. O tempo também não se decifra, acontece.

O compasso que delimita o segundo é o mesmo que detem a imagem numa fotografia, admira-se de tão irreal ser a estátua do momento.

Nunca foi, é. O movimento existe perene, renova-se e persiste. Por maior que seja a ambição de agarrar uma nuvem, a sua inquietude, apesar de leve, não permite. 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tempos que se cruzam, mentalidades que urgem


Tinha medo do escuro. Agora procuro a luz, sabendo que no trajeto passo por corredores sem ela. O frio não faz esquecer o calor que me espera.

O sacrifício é peregrino que almeja um bem maior.



(A utilização da 1ª pessoa aqui não é mais do que uma questão prática na tentativa de transmitir a consciência coletiva – pensamentos do antes e do agora, 38 anos de distância que colidem num tempo paralelo, o da imortalidade dos valores isentos de época e de costumes.)

domingo, 22 de abril de 2012

Um dia complicado... e ainda bem!


Sexta-feira de madrugada, o despertador já não tocava tão cedo há uns tempos. Estranhei mas levantei-me num ápice, yes sir! Ele é que manda e se duvido (por pouco que seja) da sua autoridade, não faço caso aos compromissos. (E é do melhor sono que há, o sono proibido…). A verdade é que não hesito no momento de despertar e deixo as ponderações para depois. Começo a organizar-me e a perceber se tenho realmente um motivo válido para tal esforço. Ah sim, verdad! Motivo-me, imagino-me a passear no meu “novo mundo encantado”, a reencontrar caras que já me são familiares e agradáveis e a ouvir a tão caricata pronúncia catalã, com a qual também já estabeleci empatia. Ok, é por uma boa causa, vamos a isto!

5h30. Não encontro a porta de embarque, que a esta hora já é costume estar assinalada. Vou verificar o painel e, estranho, BCN é na porta 15 mas lá diz Madrid?? É o tal problema de nem sempre estar conectada com o que se passa em volta… A greve dos controladores de tráfego aéreo já tinha começado no dia anterior e continuava neste mesmo dia, até às 10h! Ora se o meu vôo era às 6h40… bad luck. Bem, vou aproveitar para dormir mais um bocado. 
Acordo com um empurrão de rabo nos meus pés e levanto-me sobressaltada. O encontrão foi dado por uma senhora que aparentava ter parentesco com a família real inglesa e (talvez por isso) não se incomodou em pedir desculpa, nem sequer a dirigir-me um olhar. Para ela eu era como um sem abrigo que se tinha aproveitado da confusão do aeroporto para passar despercebido. Imaginei que para estes não seja fácil lidar com a indiferença constante de que são alvo.

Decidi passear pelas lojas duty free e livrarias (se se podem chamar assim). Já não estava impaciente porque consegui a oportunidade de ler sem horas curtas e cheirar perfumes indiscriminadamente. Hmmmm… Depois de encostar o nariz a uma dezena de frascos de odores triviais, eis que surge um divino! Precipitei-me a perfumar-me discretamente. Suave mas quente, envolvente... não era frutado, tinha parte floral (lavanda) mas com certeza também óleos de madeira (talvez sândalo).

Mais uns passos à frente, Internet free, onde aproveitei para mandar alguns "bitaites" no FB e perceber melhor as razões que motivavam os controladores de tráfego aéreo a serem tão cruéis! Cheguei à conclusão que têm motivos válidos por isso o meu grau de aceitação do que se estava a passar foi maior a partir dali.

Música num dos ouvidos, bora pra porta de embarque, já são as 11h30 e tinham previsto embarque às 11h40. Optei por Abege, achei que zouk poderia ajudar-me a manter a paciência.

Em apenas dois idiomas (português e inglês), avisaram que o vôo para uma cidade francesa (cujo nome não me recordo de momento), realizaria o seu embarque noutra porta. Até ali estava apontado para a mesma que Barcelona, porta 15. Entretanto, apercebi-me que a senhora à minha frente era francesa e estava atarefada com o filho aquando o aviso.

- Excuse me, do you speak in English?
- Yes, a little. – respondeu de sorriso atento.

Informei-a do sucedido mas a senhora, dos seus 40 anos, de brilho jovem e mente esperta, ia para o mesmo destino que moi.
Demonstrou-se muito agradecida de qualquer forma, reconheceu a boa intenção, e aproveitou para “esticar as pernas” da comunicação e puxar conversa comigo. Ao contrário do que é costume nestes contextos, em que às vezes surge o constrangimento da necessidade de desenvolver uma conversa fluída e interessante (e nem sempre é essa a vontade), a naturalidade do diálogo foi imediata e estávamos atentas e curiosas ao que cada uma contava. Concluímos que o espanhol era o idioma em que nos entendíamos melhor e a simpatia entre palavras foi realmente genuína. Entendia-lhe no olhar que sintonizava com o meu raciocínio (coisa que nem sempre é fácil) e nunca o meu espanhol fora tão experto. Há nesse entendimento mútuo um conforto impossível de descrever com precisão.

É-me muitas vezes difícil identificar-me com outrem, apesar da empatia se gerar com alguma frequência. Chego a pensar que é uma fantasia inconcretizável encontrar amigos com quem realmente me identifique, por mais afeto que sinta pelos atuais. Simpatia, compaixão, interesse, atração, acontecem aqui e ali, sente-se e deixa-se de se sentir num piscar de olhos. Vontade de partilhar, de me dar a conhecer, de manter o olhar e de me despir de tiques sociais por os considerar desnecessários, posso contar pelos dedos de uma mão as vezes que aconteceu rápida e espontaneamente. 

O que tínhamos em comum, Milène, uma francesa que veio visitar a irmã que vive em Aveiro, acompanhada de seu filho Yannis de pele morena e bochechas rasgadas pelo riso e uma portuguesa que aspirava decifrar a psique humana através das mais variadas invenções? A resposta não foi desvendada mas com certeza que existe muito. Completar frases, exclamar indignações e ter o seu retorno instantâneo, gargalhadas que não se contêm e olhares que não incomodam, dão algumas pistas do quanto nos identificamos prontamente. Havia ainda uma maturidade na sua conduta (que não se encontra em todas as pessoas com 40 anos, não) que em vez de me intimidar me fez admirá-la mais.

Ajudei-a a disfarçar a mala oversized, apesar de não me ter pedido; fui cúmplice quando acendeu um cigarro na zona exterior (onde não é permitido) enquanto esperávamos que a fila andasse – não era deste tipo de maturidade/responsabilidade que falava há pouco. Preocupou-se em certificar-se que me sentava a seu lado no avião.

Já no boeing 737-800 aircraft, estava moída, precisava de descanso e até nisso nos compreendemos, ela de certo também sentia o mesmo e a conversa sofreu uma pausa. Não conseguia dormir por isso pedi emprestado um jornal que um conterrâneo lia. Virando páginas, fui comentando quando reparava que surgia alguma curiosidade do meu lado direito, onde estava sentada a minha mais recente “amiga”.

Entretanto referiu que depois daquela viagem ainda iria de carro até Montpellier, onde vive. Manteve la mirada un rato e acrescentou que seria muito bem-vinda em sua casa, onde costumava acolher estrangeiros, maior parte das vezes oriundos de países nórdicos. Trocamos emails e prometi-lhe que também lhe mostrava o “meu” Porto um dia em que tivesse oportunidade de voltar, uma vez que esteve em Aveiro grande parte do tempo e deu apenas um salto a Lisboa, ficando a vontade de regressar a Portugal para conhecer a Invicta para além do seu aeroporto. 
Por baixo do email, a assinatura. Já não consigo evitar o olhar indiscreto a cada vez que alguém se expõe de tal forma, tão natural e inconsciente. O apelido saltava à vista, em maiúsculas. Os meus professores (da pós-graduação de Grafoanálise que frequento) alertaram para não fazermos juízos através de uma assinatura isolada, sem texto, porque a sua análise depende dessa comparação, mas arrisquei: “Muito orgulho pela família da qual descende!”, comentei. Surpreendida e impressionada, respondeu-me: “Muito!!”  Provavelmente não seria só esse o motivo de escrever o apelido em maiúsculas mas foi o suficiente para estreitar (ainda mais) a confiança.

Despedimo-nos no comboio, sairia uma paragem depois de mim. Já após a despedida oficial, procuramo-nos mais uma vez, esticando o pescoço, para acenar com vigor um sincero até já.

Chegada à faculdade, atrasada porque ainda fui enganar a fome, tarde e a más horas devido a tamanho atraso do vôo, a minha colega mais próxima lançou a observação: “Oye! Te veo más alegre hoy!” Ainda gracejou que pensava dever-se a alguma interação mais íntima que pudesse ter tido. Pareceu confusa com a minha resposta: “Tive um dia complicado hoje… e ainda bem!”

Há encontros que provocam um bem-estar de efeito prolongado, tão ou mais gratificante que qualquer outro tipo de satisfação humana.

E as complicações, por vezes, levam-nos por caminhos mais interessantes do que o previsto!


sábado, 21 de abril de 2012

Desabafos de momento


Deixei de querer acreditar. Achei mais sensato contentar-me com o dia-a-dia comezinho, a seguir a rotina de um emprego, a tapar os problemas com a peneira. Mas estes, como o sol, queimam enquanto persistem. E a pele torna-se fina, mais sensível  depois de lesada.

Esforçei-me para me alegrar com “o pouco que tenho”. Afinal é muito, é quase um crime lamentar-me nestes dias em que ter patrão, local onde me aconchegar, comida e excentricidades pontuais (ou semanais), é ser privilegiado.

A pirâmide de Maslow e as suas descritas graduais necessidades, é hoje utopia para grande parte da população. O presente tratou de erodir as camadas superiores e a pirâmide virou planalto. Também eu me resignei a vê-la  assim, cortada.

Cortadas foram também as ilusões de que o mundo era perfeito com os seus erros. Nem sempre consigo manter a visão de que tudo é aprendizagem útil e rentável. Às vezes o desânimo toma lugar. Não por muito tempo mas com algum peso que me atrasa o ritmo. Atrasa-me o passo.

A certeza de que construir o futuro estava nas minhas mãos alterou-se para a aceitação de ter de me adaptar às intempéries e que isso, por si só, já é feito louvável.

Tenho força, tenho sonhos, mas a luta pela “sobrevivência” cansa-me o espírito.

(Como quem bufa para expulsar pensamentos pesados e tensões acumuladas.)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Sobre a dualidade - do bom ao vilão


Não sou inocente mas gosto de acreditar. Gosto de acreditar que existem boas intenções ou, pelo menos, que não existem assim tantas tão más (quanto se diz). 

Posso ler sinais de alerta, perceber comportamentos desviantes mas tento justificá-los com motivos que valido, mesmo que o próprio sujeito não se defenda. Sinto-me melhor assim, num mundo não tão negro quanto o pintam.

Continuo a defender o fifty-fifty: metade da amostra de uma população não será tão fácil de lidar quanto a outra. Mas o que é isso de ser “mau”? Ter maldade? É-me difícil imaginar alguém que nunca sentiu inveja, ódio, desejos “proibidos”… Parte de nós contém-se ou sublima estes sentimentos e emoções, outros reagem indiretamente e o prejuízo não é tão “automaticamente” visível, outra parte, a apelidada de desviante, cede aos impulsos sem medir as consequências (ou se as medem dão-lhes pouca importância). O conteúdo emocional é o mesmo, o chamado “fundo” não me parece mais “bonito” nalguns do que noutros. A diferença está na forma como se lida com a turbulência que se cria interna e naturalmente. E isso é o mesmo que distingue o bom do mau? Ou o amistoso do vilão? Nem todos temos mecanismos e recursos para gerir os problemas da “melhor” forma e, nestes casos, talvez se borre mais facilmente a pintura mas…

Por detrás da antipatia mais áspera e do comentário mais irónico e até de rancores declarados, podem-se encontrar qualidades humanas mais “louváveis” do que no fundo de sorrisos e discursos hábeis. Por detrás do primeiro pode estar uma criança assustada (passo o cliché) que se foi conseguindo defender assim, face a um meio hostil, enquanto que o segundo provavelmente teve mais oportunidades para se colocar na posição de observador e aprendeu por modelagem quais os comportamentos mais reforçados socialmente. Será que se pode denominar este tipo de desenvolvimento de mais evoluído? Numa opinião pessoal, arrisco discordar. Vejo a evolução como um sistema em que se promove a harmonia (que não é cor de rosa) através da compreensão e adaptação profundas entre uns e outros. Aprender a encaixar, a discutir na tentativa de chegar a um consenso (ou pelo menos de entendimento entre as partes), ser menos gentil (porque nem sempre é fácil) mas saber compensar, sentir-se frágil e poder dizê-lo, acolher a vulnerabilidade dos outros sem tirar proveito desta mas se isso acontecer, reconhecer a própria fraqueza e expôr as suas razões (se conscientes), poder ser orgulhoso mas evitar ser inflexível, ser franco(!), não é procurar a perfeição mas o equilíbrio. O que para mim não é o mesmo que manipulação (que associo ao caso da amabilidade artificial referida anteriormente). O exemplo da balança agrada-me. Pelo contrário, não considero evoluído aquele que aponta e exclui quem não se assemelha a ele próprio.

Na terapia de casal fala-se de cedências, já se chegou à conclusão de que uma parte não faz o todo e de que o trabalho de melhoria tem de ser feito em conjunto. Porque não aplicar esses conhecimentos/conceitos a um nível global ao invés de se seccionar os maus dos bons, os fracos dos fortes e por aí em diante..!? Eu apostava numa terapia mundial (o problema seria arranjar terapeuta e não o excluir).

Desenvolver a inteligência emocional que pode começar por melhorar o autoconhecimento, a ponto de erradicar projeções e “o outro” tornar-se mais claro para nós. Como um surfista tenta equilibrar-se nas ondas, a consciência pode tentar domar as vibrações mentais provocadas por tantos estímulos intrínsecos e por outros aparentemente externos. Acredito que só a tentativa já vale a pena e pode provocar diferenças benéficas. Mas como não posso mudar o mundo (e se pudesse não garantia que fosse para melhor), fica a reflexão e o esforço diário em adaptar-me às tempestades humanas.