Já houve quem (ou o que) me
frustrasse os desejos de tal forma que aumentou a minha líbido, ao ponto de eu
precisar de um canal para onde a pudesse transbordar. Assim nasceu o suspiro. Antes
do big bang deste universo, haviam
esboços, frases que lia para os meus botões. Foi uma força criadora que me
impulsionou a expressar, “publicamente”, de forma mais legível e disciplinada,
o conteúdo do meu âmago. Era uma espécie de amor, aquele que vivi
platonicamente por uma personagem que conheci em carne e osso, ao vivo e a
cores mas cujo figurino foi desenhado por mim, aquando a sua ausência. Todo ele
era tão real quanto imaginário – não sei qual das suas facetas gostei mais. Entretanto,
para além dele, surgiu a curiosidade de explorar esta nova forma de me expor, a
vontade de arriscar, de opinar e hoje, posso dizer, foi uma grande conquista. Uma
mais valia para as minhas dúvidas, dilemas e até para as minhas angústias! Ao
obrigar-me a estruturar o pensamento para que seja compreendido por outrem,
também eu me entendo melhor e, como por magia, o que parece complicado (antes
de pôr no “papel”), simplifica-se – autopsicoterapia à distância de umas
teclas. E o céu é mais vezes azul, sem nuvens (pelo menos) carregadas.
O amor, sob todas as suas formas,
não deve ser subestimado. Desde o amor familiar, à amizade, passando pelo mais
temido dos seus pseudónimos – a paixão (que se resume a um sopro (do coração)
se não se solidifica), todas as suas formas contêm em si um poder que a ciência
ainda não explica, mas nem por isso é considerado paranormal, pelo contrário, é
potencial hóspede no mais comum dos mortais. É quando ele espreita que
acontecem grandes modificações, apesar de nem sempre serem notadas pelo
observador mais distraído. No coração dos "amantes", e em todos os seus orgãos, começa
um reajustamento. Tentamos encaixar-nos no outro, na sua vida, e na nossa com a
dele. Ora quando o amigo precisa de nós ou nos inspira a confiança necessária
para seguir um caminho que ele nos deu força para seguir, ora quando o bebé
chora ou a mãe pede ajuda porque lhe doem as artroses, ora quando o amado sabe
que pensamos nele tanto quanto pensa em nós, há uma união simbiótica tão
perfeita quanto a flor da vida.
Afirmo com segurança que o amor
consegue, imprevisivelmente, dar-nos a conhecer o melhor de nós. A nós próprios
e aos outros, aos que o reconhecem.

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