A recente visualização de uma reportagem sobre uma "nova" adição deixou-me a pensar... E a questionar. Adição à internet. Já se fala no termo há algum tempo, a nível mundial, mas apenas há pouco causa comichão a alguns aqui neste nosso cantinho. Até já há terapeutas especializados na causa. Pois eu acho muito bem, as necessidades surgem conforme as alterações dos padrões de vida e hábitos do cidadão comum.
O que me deixou a pensar foi o facto de que atualmente tudo se rotula e especifica, deixando-se de parte uma individualização dos problemas e uma busca da verdadeira origem do surgimento de algumas "micropatologias". Com este termo (micro), não pretendo reduzir a importância nem a gravidade das situações mas sim alertar para o facto de que existe, com certeza, um "macro" problema por detrás. É mais fácil para os pais (sem os querer com isto culpabilizar - os filhos não vêm com manual de instruções e cada pai também é um ser humano, repleto de "defeitos" congénitos e de origem ambiental) apontarem a internet (por exemplo) como a causadora dos maiores conflitos e dificuldades dos filhos. Assim como é mais fácil para todos culpar o governo em vez da própria natureza humana, dos atuais problemas sociais. Isto sem querer desresponsabilizar ninguém em particular até porque sou muito indecisa quanto à minha orientação política...
Voltando ao assunto, considero que o nosso foco é demasiado isolado e pouco abrangente, em quase tudo, desde a Psicologia à Medicina em geral (certos medicamentos que "tapam o sol com a peneira"... entre outros). Não se pode dissociar levianamente uma mancha na pele de um problema cutâneo maior, nem este de um mau funcionamento do organismo em geral, como uma fraca imunidade, por exemplo.
É urgente distinguir quais os verdadeiros problemas da nossa geração que se refugia em jogos de computador, internet e outros estímulos de fácil acesso. Porque estes não são mais do que fugas e reflexos de dificuldades mais complexas. Talvez os efeitos secundários destes abusos sejam mais perigosos do que quem lê compulsivamente ou de quem dança como se não houvesse amanhã, é verdade. Em todos os casos, não existe prazer que se equipare, em contraste com uma insatisfação constante que assola os mais frágeis e propensos a uma adição.
A tecnologia pode ser uma forte aliada, mesmo no âmbito da ecologia, o que por sua vez promove saúde ambiental. Não vamos cair no facilitismo de a acusarmos de todas as maleitas da atualidade... Escusado será dizer que defendo que esta deve ser utilizada dentro da medida do razoável e não como um substituto da mão de obra (e convivência) humana, logicamente.
Importante seria apostar numa política de prevenção. Integrar e cultivar atividades e hábitos saudáveis desde "tenrinhos", pode ajudar a uma escolha mais benéfica de mecanismos de coping. A internet é um alvo fácil para quem procura um escape e não vê muitas alternativas, pois provavelmente não foi habituado a vê-las. É realmente difícil competir com os mídia, sob o ponto de vista da intensidade com que nos influencia a todos, mas para quem conhece um verdadeiro prazer na vida, sem efeitos adversos, não há fator externo que consiga dominar. Aqui entra a importância da arte, dos desportos (preferencialmente sem competição), onde se podem englobar inúmeras atividades que promovem o bem-estar, a auto-estima, a interação com o outro, todas elas essenciais na construção de uma personalidade sana. O investimento no amor ao próximo (e não estou a falar de religião, mas talvez de espiritualidade, embora concorde que a primeira tenha muitos pontos a favor, nalguns casos, mas ia divagar), numa boa socialização e educação, o contacto com a natureza, animais, (blá blá blá, porque isto não é novidade) também são pontos fundamentais.
Obviamente, não controlamos todas as variáveis externas que nos possam influenciar, a nós e aos nossos, mas no que depender da nossa ação e opção, há muito para fazer e o incentivo aos hobbies é apenas uma sugestão (e cuidado que estes também se podem tornar viciantes!). Não me identifico com discursos moralistas e encaro este texto como uma chamada de atenção ou uma simples reflexão.
Não é tão trabalhoso assim, para que seja preferível apontar o dedo à internet ou a outra adição de fácil acesso. É claro que fácil é falar, ou escrever, mas se todos tomássemos como responsabilidade uma maior atenção ao que realmente importa, ao invés de andarmos distraídos, possivelmente se evitariam algumas situações problemáticas. E porque é raro ligar a TV e ligar-me à net sem um objetivo específico, posso-me, de certa forma, orgulhar de assim conseguir uma maior consciência crítica do que se me deixasse programar, não querendo com isto dizer que seja uma forma mais correta de viver mas talvez mais "livre" (e ignorante - às vezes ignoro temas atuais dos quais é importante estar ciente. Bem, vou lendo o jornal!).
Isolamento social, bullying, complexos, carência afetiva, dificuldades na gestão emocional, são alguns pontos de fragilidade que aumentam a probabilidade do encontro com uma dependência. A estes não é preciso fechar os olhos e devem ser tratados na sua causa e não apenas nos sintomas. Também se fala do gene do vício, casos mais complicados. Mais uma vez, a adição pode ser encarada como um sinal visível de algo mais profundo, às vezes oculto. Concordo com uma maior preocupação e uma maior abertura dos olhos aos verdadeiros problemas, pois parecemos estar a ganhar o vício de encontrar novas modas patológicas, e este não deve ser fácil de travar
E com isto já passei mais tempo à frente do computador do que era suposto, e desejável.
Sim, contradigo-me algumas vezes, mas não as suficientes para me conseguirem fazer um diagnóstico :))
As pessoas gostam muito da internet porque permite comunicar sem frustrações: não é preciso dar a cara, olhar nos olhos do outro, ser emotivo. Não tenho a obrigação de responder estando, algumas vezes, a ser pressionado pelo outro. Não, as pessoas gostam do conforto que a internet dá na sua relação com os outros. Para além disso, as pessoas não têm nada a dizer. E é fácil de perceber porquê. Estão a perder vivências, capacidade de sentir, capacidade para reagir em fracções de segundo.
ResponderEliminarÉ por isso normal o crescimento galopante das redes sociais. Basta partilhar e estou a "comunicar".
Os blogues também entraram em força, mas depois entraram numa era de declínio. Endende-se: custa tempo e paciência gerir um blogue e dotá-lo de bom conteúdo. E acima de tudo, é preciso um espírito de grande resistência à frustração porque nem sempre temos os likes e comments dos outros.
Estou a gostar muito de te ouvir a suspirar, continua.
Confortável por um lado, necessária por vezes quando é a única forma de comunicação possível. Aqui a frustração também acontece. Quando há o que dizer, nem que simples devaneios, e ficam por partilhar dada a limitação deste meio. Aqui volta-se a questionar: ao invés de facilitar a comunicação, prolonga-se um contacto "deficiente" quando este já não faria sentido se não houvesse esta "facilidade" que o permite(?)
EliminarReflexões de quem gosta de arrumar o sótão quando o entulho tapa as janelas e não deixa entrar luz.
Concordo, o acesso e "facilidade" em comunicar através destes meios é demasiado cómodo mas tem o reverso da moeda. Parece solução para muitos dos problemas sociais e pessoais quando, por último, os reforça e aumenta as dificuldades nesses mesmos âmbitos, principalmente quando esta ferramenta é utilizada como um substituto.
ResponderEliminarNeste texto quis salientar o ênfase que se coloca num problema gerado por causas maiores e, aqui, a internet não é diferente do álcool, tabaco ou qualquer outra "adição social". O que pretendia era transmitir que estas causas maiores não devem ser ignoradas pela distração que o sintoma provoca.
Também era minha intenção fazer a ponte entre este caso de diagnóstico particular e a visão que se costuma ter perante maior parte dos problemas que surgem. No campo da Medicina/Psicologia, é tão irónico que um diagnóstico e tratamentos focados somente nos sintomas se assemelham às próprias patologias. Exemplo disso é a depressão, onde existe uma atenção seletiva - o paciente centra-se nos acontecimentos/argumentos negativos quando um quadro (o próprio mundo) tem tantas cores.
Muito obrigado pelo "comment", é sempre confortante ter feedback, principalmente quando há uma reflexão genuína sobre os temas e sabendo que esta é mais complicada de elaborar do que clicar no like ;)
Tenho amigos que leem e até comentam pessoalmente mas ter uma resposta por escrito tem outro peso.
Só não sei se estou a "falar" com algum Fernando que conheça! Mas isso é o menos importante :)